A volta às aulas: muito além do material escolar
Autor: *Maristela R. S. Gripp
Papelarias cheias, listas extensas, crianças correndo com mochilas nas mãos e pais tentando dar conta da interminável compra de materiais. Após as férias, a volta às aulas é um dos momentos mais marcantes do calendário das famílias brasileiras.
Para quem inicia a trajetória escolar, atravessar o portão da escola pode provocar ansiedade. O desconhecido está logo ali. Já para aqueles que seguem na caminhada, é mais um ano rumo à conclusão de uma etapa fundamental da formação.
A educação básica é o alicerce de toda aprendizagem. Por isso, apressar processos nessa fase não é uma boa estratégia. Muitos pais se orgulham quando os filhos avançam séries por já saberem ler e escrever. No entanto, a ausência de maturidade emocional pode gerar dificuldades futuras, especialmente diante de novos desafios.
No Brasil, o acesso à pré-escola ainda é um privilégio. Para alguns, pagar para que a criança “brinque” parece um gasto desnecessário. Para outros, a falta de recursos impede qualquer escolha. Essa desigualdade compromete o desenvolvimento desde os primeiros anos de vida.
Estudos da Psicologia do Desenvolvimento mostram que é entre zero e seis anos — período da primeira infância — que ocorre o maior crescimento cerebral. É nessa fase que se constroem as bases cognitivas, emocionais e sociais. Aprender a andar, falar, conviver e pensar acontece, principalmente, por meio do brincar.
Dados do Ministério da Saúde indicam que experiências positivas nessa etapa ampliam significativamente as chances de desenvolvimento pleno. É nesse período que se consolidam estruturas emocionais e áreas do cérebro relacionadas à personalidade, ao caráter e à aprendizagem.
A escola é o espaço onde essas potencialidades ganham forma. Conceitos básicos, como tamanho, quantidade e posição, são desenvolvidos nas atividades cotidianas. Da mesma forma, o processo da escrita começa antes do lápis: na areia, na pintura com os dedos, no manuseio do papel. Tudo faz parte da preparação.
Além disso, hábitos essenciais à vida em sociedade são aprendidos desde cedo: respeitar a vez do outro, cuidar da higiene, organizar seus pertences, conviver com as diferenças.
No centro desse processo está o professor. É ele quem articula saberes, afetos e experiências, em parceria com as famílias. Um trabalho que exige formação, dedicação e, sobretudo, valorização profissional. A volta às aulas, portanto, vai muito além da compra de materiais. Representa a renovação de esperanças, o compromisso com a educação e a construção de um futuro mais humano, justo e consciente.
Mais do que formar trabalhadores, a escola forma cidadãos. E é nessa missão que reside sua maior importância.
*Maristela R. S. Gripp é Doutora em Estudos Linguísticos -UFPR. Psicopedagoga -UNESA. Professora do Curso de Letras UNINTER
Autor: *Maristela R. S. GrippCréditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e RDNE Stock project/Pexels


