A babá eletrônica dos pais preocupados: por que a nova lei digital pode ser um tiro no pé

Autor: *Sheron Mendes

Vamos combinar: a internet virou uma espécie de Velho Oeste para crianças e adolescentes, e já estava mais do que na hora de o xerife aparecer. Com a chegada da nova lei “ECA Digital”, prevista para 2026, há um sentimento coletivo de alívio no ar. Finalmente, as gigantes da tecnologia serão colocadas na parede. E, não me entendam mal, a intenção é nobre. É um progresso. Mas, como aquela amiga que sempre estraga a surpresa, preciso fazer o papel de chata e levantar alguns pontos: será que a cura não pode trazer seus próprios efeitos colaterais?

A nova lei chega com um pacote de soluções que soam como música para os ouvidos de pais desesperados: verificação de idade com tecnologia de ponta, contas de menores de 16 anos atreladas aos pais e robôs de inteligência artificial caçando conteúdo perigoso 24/7. Parece o roteiro de um filme de ficção científica onde os mocinhos finalmente vencem. Contudo, na vida real, a coisa é um pouco mais complicada.

Primeiro, a tal “verificação de idade”. Para que ela funcione, teremos que entregar de bandeja nossos dados mais preciosos como fotos de documentos e biometria facial para as mesmas empresas que, até ontem, lucravam com a nossa distração. A ideia é criar um cofre para proteger as crianças, mas estamos entregando a chave para quem talvez não seja tão confiável assim. É como pedir para a raposa ajudar a construir o galinheiro. Um vazamento, e o estrago pode ser infinitamente pior que um perfil falso.

Depois, vem o “controle parental” obrigatório. A intenção é ótima, mas ela parte do princípio de que todo adolescente é uma bomba-relógio e todo pai é um agente do FBI. A verdade é que adolescentes precisam de um mínimo de privacidade para se desenvolver. Imagine não poder pesquisar sobre aquela dúvida “embaraçosa” sobre seu corpo ou sobre como lidar com a ansiedade sem que um alarme soe no celular dos seus pais. A medida, que busca proteger, pode acabar criando uma geração de jovens que não confia nos adultos e que aprende a operar nas sombras.

É nesse ponto que nós deveríamos ouvir mais gente como o psicólogo Jonathan Haidt. Ele tem uma ideia que, de tão simples, parece radical: e se, em vez de construir uma babá eletrônica gigante e cheia de falhas, a gente simplesmente não entregasse a chave do parquinho para as crianças antes da hora? Haidt defende: nada de smartphone sem uso mediado antes dos 14, nada de rede social antes dos 16. Ponto.

A proposta dele muda o foco da tecnologia para a biologia. O problema não é o conteúdo, é a exposição precoce de um cérebro em formação a um ambiente de dopamina infinita e comparação social cruel. A solução, portanto, não seria um algoritmo “limpador”, mas uma educação digital para valer, que ensine as crianças a pensar criticamente, e uma norma social forte que adie essa entrada no mundo digital.

O ECA Digital é um passo importante, sem dúvida. Mas não podemos cair na armadilha de achar que um software vai resolver um problema de software humano. A lei trata o sintoma, mas a doença, a nossa relação de dependência e a exposição precoce às telas, continua lá.

Então, sim, vamos reconhecer o progresso. Mas vamos manter um pé atrás e os olhos bem abertos. A verdadeira revolução não será tecnológica, mas cultural: quando desligarmos o piloto automático e começarmos, de fato, a conversar e a educar nossos filhos para o mundo como ele é. Digital e real.

*Sheron Mendes é Bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.

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Autor: *Sheron Mendes
Créditos do Fotógrafo: Banco Uninter e Pexels/Max Fischer


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