Uma mulher sem freios

Autor: Nayara Rosolen - Jornalista

Unir o mundo corporativo com a alta velocidade do rally e a misticidade da astrologia pode não parecer uma combinação possível. Mas foi exatamente essa fusão de repertórios diversificados, somado à inquietação e dedicação, que tornaram Manon Garcia uma profissional consciente de quem é e preparada para lidar com a gestão de projetos e pessoas.

Até os 11 anos de idade, Manon viveu uma infância muito simples e passou quase toda a juventude no bairro Jardim das Américas, em Curitiba (PR). O pai, Jobes, era feirante e a mãe, Vera, polia cristais em uma loja. Nessa época, o sonho da jovem já era ser professora, no entanto, o estudo para além do ensino básico não foi uma condição na família, até então.

Ainda que o pai, dentro do contexto do comércio, não acreditasse em um futuro advindo dos estudos, quando Manon tinha 12 anos de idade, Jobes quebrou um pedaço da parede da churrasqueira que tinham nos fundos da casa onde moravam, construiu um quadro de cimento e pintou de verde.

“Eu passava as minhas tardes e os meus finais de semana estudando os conteúdos que tive durante a semana. Ensinava a mim mesma, porque não tinha aluno nenhum, e essa sempre foi a minha grande paixão”, lembra.

Manon também observava admirada o tio materno Marcos João estudando com os amigos da faculdade, um “grande exemplo” para que quisesse seguir nos estudos.

A vida melhorou com o passar dos anos e Jobes começou a trabalhar com automóveis em uma concessionária. Manon, também “sempre muito apaixonada por carro”, pegou carona com o pai e entrou para o mundo do trabalho aos 14 anos, a princípio na limpeza e depois no atendimento.

Uma mulher de muitas facetas, carregada de muita fé e sempre em busca “do porquê dos porquês”, foi nessa mesma época que Manon teve o despertar para um novo interesse. Ler e estudar sobre astrologia e tudo o que envolve esse universo. Um hobby que trouxe muitas revelações com o tempo e que também se tornou uma atividade profissional lá na frente.

Aos 16 anos, a jovem descobriu o mundo dos computadores MSX e depois o CP 500, onde podia programar em DOS (sistema operacional) e construir planilhas que faziam cálculos. Foi assim que, de recepcionista, passou a ajudar o pai nos cálculos das vendas e a pensar estrategicamente a partir de números e indicadores quantitativos.

Ao perceber o gosto e habilidade da filha, Jobes montou um administrador de consórcios, contratou um diretor para a implantação e pediu que Manon o acompanhasse.

Já na maioridade, ela conquistou a carteira de motorista e falava que “queria correr de carro”. Quando não estava trabalhando, sua paixão era ficar no meio da graxa, ajudando a consertar motores e ajustando peças.

“Eu tinha muitos amigos que tinham oficina mecânica, me aproximava, ia aos finais de semana e via como se regula carburador, como fazia para plainar o cabeçote para poder colocar um comando novo, troca de óleo, freio, eu sempre gostei”, conta.

Foi então, aos 22 anos, que entrou para o rally de velocidade, no início como navegadora, conhecida como “os olhos do piloto”. Aquela que define junto o planejamento e a rota a ser feita, a partir das orientações da organização do evento. No dia da prova, é quem orienta o piloto para que possa ter o melhor desempenho durante o trecho.

Paralelo a isso, Manon se mantinha em trabalhos formais, e o primeiro cargo de gestão organizacional chegou aos 24 anos, na área de administração e de estratégia, algo de que sempre gostou muito e desenvolveu habilidades enquanto colaborava com os negócios do pai.

Nesse momento, começou a conciliar o trabalho administrativo com as viagens para as corridas. As andanças pelo país não eram uma questão, já que nas férias era comum percorrer o país com a família para visitar os tios em estados como Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Bahia. Durante as competições de rally, chegava a ficar três semanas por mês fora de casa. Assim também surgiu a admiração pela mobilidade.

“Eu chegava em casa [do final de semana], punha a mala, lavava, dormia segunda, terça, na quarta já tinha que pegar voo de novo […] Nessa época, eu tinha a facilidade de ter uma equipe muito ponta firme, então eu trabalhava direto para poder ter banco de horas, mesmo como gestora. Sempre cuidei muito do planejamento, sempre gostei de trabalhar com programação”, explica.

No mundo corporativo, como gestora, passou por empresas como Disapel, Nissei, Stemac, entre outras.  Manon acredita que ter corrido de carro foi o que a ensinou a trabalhar em equipe, onde aprendeu a delegar e confiar nos parceiros de trabalho.

A piloto precisava acreditar que os profissionais mantinham tudo certo para que o carro pegasse uma velocidade de 190 quilômetros por hora e, às vezes, também passava noites em claro com a equipe consertando o veículo para correr novamente no dia seguinte.

Foi com a mesma empatia e respeito que ela construiu a carreira nas gestões organizacionais das quais fez parte. Embora no mundo do automobilismo também tenha experienciado ser uma das três únicas mulheres em um contexto dominado por homens.

Movida pela paixão e pela adrenalina

Manon teve a oportunidade de correr no Brasil e também no exterior, em competições nacionais e sul-americanas. Até os 29 anos, fazia parte de uma equipe independente, sem patrocínio. Nessa idade, teve a oportunidade de ingressar em um time que fazia parte da Peugeot, com uma dupla feminina.

Para a profissional, o preconceito de gênero em um espaço predominantemente masculino era uma realidade, a começar pela palavra ‘piloto’, que não possui o feminino. Mas para além das questões gramaticais, era comum escutar comentários ou piadas com relação à força que não teriam para comandar o carro.

“Quem faz força é o carro, não sou eu, eu só dirijo”, rebatia Manon. “Nós éramos três meninas no brasileiro, a única dupla feminina e uma outra navegadora, no meio de 30, às vezes 60 duplas masculinas”, lembra.

Embora sempre tenha sido “um mundo muito masculino”, o automobislismo também sempre foi o hobby da piloto, que muitas vezes precisava provar para os parceiros de que não só sabia o que estava fazendo, como era uma das melhores nas competições.

Os imprevistos e acidentes nas pistas também faziam parte do processo. Ela já perdeu amigos, viu outros acidentados e, em outras situações, ela mesma já capotou, bateu e travou o motor. Ainda assim, a Senhora destemida (como ela se intitulada em seu perfil em rede social) numa referência à sua esposa, que é uma destemida investigadora na Segurança Pública) nunca teve “problemas em relação a ter medo” e “nunca quis desistir”.

“Em um rally sul-americano, passei o meu primeiro acidente com velocidade. Fizemos um salto e acabamos por perder na hora de cair, entrando para a lateral e para dentro de uma fazenda. Você fica parado dizendo ‘ai, meu Deus, aconteceu isso’. Já passei por alguns momentos de estar correndo em serras, via a estrada de baixo, o pneu dava uma escorregada […] mas a adrenalina faz com que você queira e saiba que isso faz parte do processo”, conta.

Manon entende que a pista de rally é preparada para isso e os carros têm a segurança de acordo com os princípios estipulados pela Federação Internacional de Automobilismo, sempre vistoriado antes de cada prova.

No período como piloto, também teve a oportunidade de unir o automobilismo com a gestão. No final da década de 1990, morou em Assunção, capital do Paraguai, para a implantação e gestão de um kart indoor. “Um grande desafio”, que deu a oportunidade de conhecer grandes pilotos da Fórmula 3000. Dois anos depois, Manon optou por deixar o país ao invés de tentar uma nacionalização, “por ser um país muito difícil para as mulheres naquela época”.

Ficou por três anos na Peugeot e, em 2004, saiu para correr pela Volkswagen com Paulo Lemos, campeão sul-americano. Ficava “sempre entre primeiro e segundo lugar nos rallys brasileiros, paranaenses e algumas provas sul-americanas”. Em 2005, pensou em parar, mas foi convidada pela Fiat para correr com o mineiro Eduardo Cunha.

Na competição pela categoria N2, que são carros originais de fábrica, Manon encerrou o campeonato brasileiro em quarto lugar em 2004 e em terceiro lugar em 2005, sua última atuação profissional no rally de velocidade.

Da alta velocidade para a sala de aula

Ainda em 2003, com 32 anos de idade, Manon ingressou na graduação em Administração e, aos 35, deixou a atuação no rally para terminar os estudos. Mesmo com os questionamentos de colegas sobre a transição profissional, ela sentia que precisava seguir o caminho e realizar o sonho que a acompanhava desde a infância.

Do rally, carregou consigo todo o conhecimento sobre parceria, comprometimento, lealdade, honestidade e trabalho em equipe, fosse no mundo corporativo ou no universo acadêmico.

Manon se formou na graduação e realizou uma especialização em MBA em Marketing e Logística. Aos 39 anos, começou a dar aulas junto com o cargo de gerente comercial na Stemac Grupos Geradores. Com o tempo, deixou o trabalho de gestora para se dedicar integralmente à docência, ganhando apenas 20% do que recebia na função anterior.

Trabalhou em faculdades de cidades da região metropolitana de Curitiba, como Pinhais (PR) e Colombo (PR) e, em uma troca de coordenação, foi indicada pelos estudantes para assumir o cargo. Mesmo “um pouco insegura por não ter tantas experiências”, contou com o apoio da direção, demais coordenadores da instituição e toda a equipe pedagógica. “Foi um grande aprendizado”, relembra a docente.

Por estar na região metropolitana, a faculdade é um ponto de referência e Manon se envolveu com o departamento de associação de bairros, departamento de obras e diversos espaços públicos, em busca de dinâmicas e colaborações.

“Comecei dando treinamentos, porque tinha muitos alunos da prefeitura, acabava por me envolver nos processos. Nunca fui servidora pública, mas comecei a me apaixonar pela cidade, pelo urbano, e entender que a cidade era uma empresa, só que eu poderia fazer o bem para muito mais pessoas. Essa dinâmica da cidade foi algo que me encantou muito”, afirma.

Manon uniu o encanto pela gestão pública e a admiração e curiosidade pela mobilidade urbana no mestrado e no doutorado, ambos em Gestão Urbana. No mestrado (2013-2014), abordou a Ecossocioeconomia urbana: Indicadores da logística sustentável de cargas fracionadas em Curitiba, e no doutorado (2015-2019), a Análise de políticas públicas de qualidade de vida e bem viver para mulheres em Curitiba.

“Eu acho que é um apelo muito grande falar sobre gestão urbana em uma cidade como Curitiba, que é referência mundial em prêmios de qualidade de gestão urbana […]. Desde pequena, admirava as pessoas andando, sempre gostei dessa questão de olhar e de imaginar como acontecia a sincronia dos sinais para que os carros parassem”, conta.

A ponto de concluir o doutorado, surgiu o processo seletivo para coordenar o curso de Gestão Pública da Uninter, em 2019. “É tudo o que eu quero”, pensou Manon.

“É um sonho trabalhar em uma instituição como a Uninter, referência em EAD. Tive muito empenho, me preparei muito e, com certeza, essa minha trajetória contribuiu. Fui aprovada e hoje tenho muito orgulho de fazer parte desse time”, declara a coordenadora.

Os astros explicam?

Manon, que se considera “uma eterna apaixonada pela velocidade”, voltou a receber convites para as pistas de rally durante a pandemia que se instalou no início de 2020. “A minha pontuação enquanto navegadora ainda é alta. Eu tive seis anos de navegação, sempre entre os três primeiros colocados na minha categoria”, explica.

No entanto, a profissional acredita que “hoje em dia não dá mais”, já que o esporte demanda um tempo muito grande. “Você tem que passar três dias para treinar e fazer os levantamentos”, complementa Manon, que não descarta possibilidades futuras. “Quem sabe um dia lá na frente”, diz.

O que aflorou mesmo durante o período pandêmico foi a astrologia, que deixou de ser apenas uma leitura dos tempos livres. Há cerca de 12 anos, Manon fez o primeiro mapa astral, o que considera algo “muito revelador”, pois conseguiu entender muito de si e “nomear muitas coisas”.

Em uma entrevista para o programa Art& Cultura, transmitido pela Rádio Uninter, a astróloga afirma que a partir de então “algumas coisas começaram a fazer muito sentido e isso possibilitou transitar por várias técnicas, terapias de autoconhecimento, para que pudesse de fato extrair o melhor e fazer da vida o mais tranquilo possível”.

“Penso que o autoconhecimento é algo muito válido, porque, como sabemos, conseguimos nomear as nossas qualidades e as nossas dificuldades. Fica mais fácil o processo de melhoria, de ajuste, de buscar sempre ser melhor. Eu gosto muito e é algo que sempre estou estudando, pesquisando […] Quanto mais nos conhecemos, menos escondemos debaixo do tapete, mais fácil é”, salienta.

Com o aprofundamento na área, no início da pandemia alguns amigos começaram a pedir que ela fizesse a leitura do mapa astral informalmente, e Manon fazia “por paixão”. Assim foi ampliando os atendimentos.

Hoje a profissional concilia o trabalho de coordenadora com as leituras na astrologia. Leva junto consigo os ensinamentos de pessoas importantes, como a mãe que dizia que “educação e bons modos são essenciais em qualquer momento da vida”. Ou de um colega piloto que afirmava que “o mundo é redondo, e a gente sempre tem que fazer o melhor possível, porque em algum momento você vai encontrar as pessoas lá na frente”.

A humildade e a união ela herdou da avó materna, Malvina. E o pai, que indiretamente foi um dos maiores apoiadores dos estudos da filha, mesmo sem acreditar na época, fez um dos últimos pedidos quando estava para falecer, no hospital: que o irmão de Manon, Jobes Rodrigo, também estudasse.

Por meio da pesquisa e da educação, Manon realizou o próprio sonho, atendeu o pedido do pai e segue transformando a vida de diversas outras pessoas na atuação como docente e coordenadora do curso de Gestão Pública da Uninter.

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Autor: Nayara Rosolen - Jornalista
Edição: Larissa Drabeski


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