Mais possibilidades de tratamentos com a implementação de novas terapias gênicas no SUS

Autor: *Larissa de Paula

A terapia gênica (TG) é geralmente definida como alteração, substituição ou suplementação do DNA de células de indivíduos doentes objetivando prevenir, tratar ou curar a doença. Apesar de, em sentido mais abrangente, se tratar de “qualquer tratamento ou intervenção médica para distúrbios genéticos”, o novo DNA assume as funções dos genes defeituosos ou induz novas funções às células, corrigindo erros e aumentando a sobrevida desses pacientes.  

O maior desafio desse tipo de tratamento é transferir a sequência gênica para o organismo sem interromper suas funções biológicas normais. Mas como inserir o gene correto, no local correto, sem causar efeitos adversos? As formas de administração mais comumente empregadas incluem vetores virais (versões modificadas e seguras dos vírus), plasmídeos (moléculas extracromossômicas de DNA bacteriano), oligonucleotídeos antisense (pequenas moléculas capazes de prevenir ou alterar a produção de proteínas) e métodos químicos.  

A TG teve início na década de 1990, quando demonstrou sucesso no tratamento da imunodeficiência combinada grave (SCID), através da utilização de uma bactéria carreadora de um plasmídeo, contendo o gene normal da adenosina desaminase (ADA), cujas mutações e consequente, inatividade incapacita as células de defesa de produzir respostas imunológicas normais. Demais ensaios clínicos com terapia gênica incluem tratamento para HIV/AIDS, fibrose cística, erros inatos do metabolismo, doença de Parkinson e algumas neoplasias.  

Ainda há diversas questões técnicas, éticas e regulatórias que dificultam a transformação de estudos pré-clínicos em protocolos clínicos efetivos, mas o potencial da TG na cura de doenças raras, tem aumentado cada vez mais nos últimos anos, por dois motivos:  a crescente quantidade de novos medicamentos baseados nessa tecnologia – mais de 16 mundialmente aprovados e seis já administrados no Brasil;   a aderência do Sistema Único de Saúde (SUS) na empregabilidade desses medicamentos, apesar dos elevadíssimos valores de cada dose.  

Recentemente, em março de 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) deferiu o registro do medicamento Roctavian, indicado para tratamento de adultos com hemofilia A grave, somente aqueles que não possuem histórico de inibidores do fator VIII e anticorpos detectáveis contra o vírus adenoassociado do sorotipo 5: AAV5). Neste mesmo mês, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinou acordos para início da “Estratégia para Terapias Avançadas”, cujo objetivo é diminuir o valor dos custos das terapias gênicas em cerca de 10 vezes e aumentar a oferta destas pelo SUS em 10 vezes.  

Estima-se que em 2030, mais de 60 novos medicamentos do gênero sejam comercializados. O alto custo apresentado deve-se a instalações e equipamentos altamente especializados e à extensa pesquisa e quantidade de testes realizados durante o desenvolvimento desses fármacos, para garantia da segurança e eficácia – além da pequena quantidade de consumidores, devido à raridade das doenças em questão, das estratégias de monitoramento e diminuição dos eventos adversos, dos treinamentos dos profissionais de saúde responsáveis pela manipulação e administração dos fármacos e da educação dedicada a pacientes e familiares, através de orientações pós-uso dos medicamentos.  

Mas sob o ponto de vista médico-científico, qual é o preço da cura de doenças que não possuem outras formas de tratamento além da modificação genética? O investimento nas pesquisas envolvendo terapia gênica contribuirá para o desenvolvimento de novos medicamentos que beneficiariam os pacientes e o SUS, proporcionando, ainda, a criação de centros nacionais de produção e, consequentemente, diminuição dos custos, possibilidade de exportação e maior acesso à população.  

*Larissa de Paula é Biomédica, especialista em Biotecnologia e docente das disciplinas de Genética e Biologia Molecular dos bacharelados em saúde do Centro Universitário Internacional Uninter.

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Autor: *Larissa de Paula
Créditos do Fotógrafo: Pixabay


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