Entre curtidas e solidão: o paradoxo das relações digitais

Valentine’s Day, ou Dia dos Namorados, é uma data dedicada à celebração do amor e possui diferentes significados ao redor do mundo. Fora do Brasil, a comemoração ocorre em 14 de fevereiro, associada à tradição de São Valentim. No Brasil, a data é celebrada em 12 de junho, criada em 1948 pelo publicitário João Doria para estimular o comércio.

Enquanto no Brasil a celebração é voltada principalmente ao amor romântico, em países como Estados Unidos, Finlândia e Estônia ela também contempla amigos, familiares e outras formas de afeto. Em um contexto cada vez mais digital, torna-se necessário refletir não apenas sobre como celebramos o amor, mas sobre como construímos nossos relacionamentos.

Com o avanço da tecnologia, a forma de viver e se relacionar passou por mudanças significativas. Em 1996, Manuel Castells já apontava os impactos da tecnologia na reorganização da vida social. Hoje, esse processo se intensifica com plataformas digitais, redes sociais e aplicativos de relacionamento, que encurtam distâncias e ampliam possibilidades de encontro. Nesse cenário, os relacionamentos iniciados no ambiente online cresceram de forma expressiva.

Dados da pesquisa longitudinal How Couples Meet and Stay Together da Universidade Stanford, mostram que essas relações passaram de 39,05% em 2017 para 60,76% em 2024. Ao mesmo tempo em que facilitam conexões, os algoritmos também influenciam as escolhas ao recomendar perfis considerados compatíveis, o que pode reduzir a diversidade dos encontros e criar “bolhas de atração”, nas quais os usuários são expostos a pessoas muito semelhantes. Assim, o acaso, tão presente nas relações humanas, perde espaço.

No Brasil, essa dinâmica também se reflete no comportamento afetivo. Uma pesquisa do aplicativo Happn, com mais de dois mil usuários mostra que 62% dos solteiros afirmam buscar um relacionamento sério em 2026, em contraste com 39% em 2025. O levantamento indica ainda a valorização de autenticidade e compatibilidade emocional, sugerindo que, mesmo em meio à lógica acelerada das plataformas, cresce o desejo por relações mais consistentes.

Diante disso, questiona-se se a tecnologia determina a forma como nos relacionamos. As plataformas podem aproximar pessoas, mas não substituem a complexidade das relações humanas, construídas pela convivência, pela espontaneidade e pelas experiências compartilhadas. Na era digital, o desafio é equilibrar esses dois mundos. Aproveitar as possibilidades tecnológicas não significa abrir mão das nossas habilidades sociais. O amor pode até começar por meio de um algoritmo, mas sua construção continua dependendo de algo que nenhuma tecnologia substitui: a capacidade humana de criar conexões reais.

 *Thais Cordeiro Marion é especialista em Gestão de Recursos Humanos e Desenvolvimento de Equipes e professora no Centro Universitário Internacional – UNINTER.

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Créditos do Fotógrafo: Pexels


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