Engorda da Orla de Matinhos: impactos ambientais e a importância do monitoramento de longo prazo
Autor: *Bruna Rocha de Oliveira Avellar
Matinhos, 29 de janeiro de 2024 - Revitalização da orla de Matinhos.
A engorda da Orla de Matinhos (PR) é uma intervenção costeira de grande escala que costuma despertar reações apaixonadas, mas, na minha visão como engenheira ambiental, o tema pode (e deve) ser tratado com serenidade técnica. Obras desse tipo nascem de um problema real: erosão, ressacas, alagamentos e perdas recorrentes na infraestrutura urbana. Ao mesmo tempo, qualquer alteração intencional do perfil de uma praia interfere em processos naturais de transporte de sedimentos e pode gerar impactos ambientais, sobretudo durante a execução.
Falar de engorda de praia com responsabilidade não é “ser contra” obras, nem fazer julgamento político: é reconhecer as intervenções nesses ambientes costeiros e ecossistemas sensíveis. Em Matinhos, o projeto combina aterro hidráulico (engordamento) – com o lançamento de mais de 3 milhões de m³ de areia para ampliar a faixa de praia em até 100 metros -, estruturas marítimas semirrígidas e obras de drenagem urbana, que ampliam o alcance ambiental e exigem olhar sistêmico.
Do ponto de vista técnico, engordas de praia tendem a concentrar impactos em duas frentes: (1) a fase de dragagem/lançamento de areia e (2) a fase de ajuste morfodinâmico da praia ao novo perfil. Uma revisão crítica recente aponta como efeitos observados após obras de engorda: o aumento de turbidez, alterações na comunidade bentônica; e, em alguns casos, presença de bactérias indicadoras de contaminação fecal no sedimento. Parte desses efeitos pode se recuperar, mas há registros de tempos de recuperação de até quatro anos.
Nesse sentido, considero positivo que a comunicação institucional do Paraná mencione programas ambientais e monitoramentos associados às obras, incluindo turbidez relacionada à dragagem, comunidades de organismos marinhos, manguezais e recursos hídricos. Também é relevante o foco em restinga, pois há registro de ações de coleta de material genético/mudas e previsão de ampliação de área de restinga e retirada de vegetação exótica, o que pode fortalecer a proteção natural da costa se houver manutenção e fiscalização no pós-obra. Com mais de 80% de conclusão na fase principal de engordamento, o projeto agora requer transição urgente para monitoramento de longo prazo.
Dessa forma, o “impacto ambiental” não deve ser avaliado só pelo que acontece durante a execução, e sim pelo que fica como obrigação de longo prazo. A engorda pode reduzir vulnerabilidade a curto prazo, mas frequentemente cria necessidade de acompanhamento contínuo (perfil praial, qualidade da areia, turbidez, biota, drenagem), porque o litoral redistribui sedimentos com o tempo e eventos extremos testam a obra de forma recorrente.
Na prática, a pergunta ambiental mais honesta não é “a engorda impacta?”, porque sabemos que impacta. A pergunta é “o impacto será bem gerido e comunicado, com metas, indicadores e correções quando necessário?”. Se os programas de monitoramento e as medidas de restauração (como restinga) forem mantidos no pós-obra, com dados acessíveis, a engorda pode ser uma intervenção de mitigação de risco com impactos controlados e lições úteis para outras cidades costeiras. Se faltar continuidade, a obra corre o risco de virar uma solução de curto prazo que cobra custo ambiental e operacional prolongado.
*Bruna Rocha de Oliveira Avellar, engenheira ambiental, doutora em engenharia de recursos hídricos e ambiental, professora dos cursos da Escola Superior de Ciências Agrárias e Meio Ambiente da Uninter.
Autor: *Bruna Rocha de Oliveira AvellarCréditos do Fotógrafo: Roberto Dziura Jr/AEN
