Das ruas do Brasil aos protestos na França: o protagonismo da juventude
Autor: Vitória Abranoski
Protesto de estudantes em 31 de outubro de 2026 na cidade de Aix-en-Provence, no sul da França.
Após as eleições brasileiras, marcadas pela forte participação de trabalhadores, estudantes e diferentes setores da sociedade civil, movimentos sociais de diversas partes do mundo passaram a observar com mais atenção a capacidade de mobilização popular no Brasil. A união entre juventude e classe trabalhadora demonstrou como a participação política pode influenciar os rumos de uma nação e inspirou grupos que enfrentam desafios semelhantes em outros países.
Nesse contexto, as redes sociais aproximaram ativistas de diferentes nacionalidades, incluindo brasileiros e franceses. Nos últimos anos, a França tem sido palco de manifestações lideradas principalmente por jovens, que reivindicam melhorias na educação e na saúde públicas, a redução do custo de vida e medidas de combate ao racismo.
Embora seja uma das maiores economias do mundo, muitos franceses afirmam enfrentar dificuldades econômicas crescentes. Em entrevista à estudante de Jornalismo Vitória Abranoski, o ativista francês de esquerda Ilian Sagginho explicou que as mobilizações começaram a partir da insatisfação com a precarização dos serviços públicos.
“O movimento começou devido ao sucateamento da educação no país. As escolas enfrentam cada vez menos professores, enquanto os estudantes lidam com uma sobrecarga de atividades”.
Segundo Sagginho, as críticas também envolvem o Parcoursup, plataforma utilizada para o ingresso nas universidades francesas, considerada por parte dos estudantes um sistema injusto. Com o passar do tempo, o movimento ganhou o apoio de outros setores da sociedade e incorporou pautas relacionadas ao aumento do preço dos combustíveis e ao combate ao racismo.
O ativista destaca ainda que as redes sociais foram essenciais para a expansão dos protestos. “Eles se desenvolveram principalmente por meio do TikTok e do Twitter, especialmente porque, no início, tratava-se de um movimento organizado pela juventude francesa”.
Outro ponto levantado por Sagginho é a atuação das autoridades diante das manifestações. De acordo com ele, a relação entre manifestantes e forças de segurança tem sido marcada por tensão e repressão. “A polícia e as autoridades francesas têm se mostrado cada vez mais agressivas com os manifestantes. Em contrapartida, os bombeiros demonstram apoio às nossas reivindicações e permanecem ao nosso lado durante os protestos”.
A violência durante os atos também é apontada como um dos fatores que ampliam a indignação popular. O ativista relata que diversos manifestantes sofreram ferimentos graves em confrontos com a polícia e afirma que o uso de granadas de dispersão já deixou vítimas com sequelas permanentes.
Além disso, ele acredita que as desigualdades sociais e as denúncias de violência policial contra populações negras e árabes contribuem para fortalecer a mobilização popular, aproximando diferentes gerações em torno de reivindicações comuns. A questão econômica também ocupa papel central nas manifestações.
Segundo Sagginho, muitas famílias enfrentam dificuldades para manter seu padrão de vida mesmo trabalhando mais horas. “Nossas famílias e nós temos cada vez menos dinheiro a cada ano, mesmo trabalhando mais”. Para o ativista, problemas relacionados ao acesso à saúde, à educação, ao mercado de trabalho e ao alto custo de vida ajudam a explicar o crescimento da insatisfação social no país.
Embora separados por um oceano e marcados por realidades culturais diferentes, jovens brasileiros e franceses compartilham um objetivo em comum: a busca por uma sociedade mais justa. Seja nas ruas do Brasil em defesa da democracia ou nas manifestações francesas por educação, saúde e melhores condições de vida, ambos os movimentos demonstram que a juventude continua sendo uma força capaz de impulsionar transformações sociais.
Mais do que reivindicações específicas, esses atos revelam o desejo coletivo por um mundo em que direitos sejam respeitados, desigualdades combatidas e a participação popular tenha papel fundamental na construção do futuro.
* Vitória Abranoski é estagiária da Central de Notícias Uninter (CNU). Artigo publicado originalmente no site do Instituto Humanitas Unisinos.
Autor: Vitória AbranoskiCréditos do Fotógrafo: Gabriel from92/Wikimedia Commons
