Chuva no Paraná e os desafios ao campo: estragos nas lavouras, prejuízos e alterações nos preços

Autor: Paula Cristiane Oliveira Braz*

Vale do Ribeira: tráfego é restabelecido na PR-340 e na PR-092, com restrições em 15 de setembro.

A chuva exerce um papel duplo na agricultura. Quando ocorre em volume adequado e de maneira bem distribuída, recupera a umidade do solo, favorece o desenvolvimento das pastagens, a germinação das culturas de verão e a florada do café e dos citros. Porém, chuvas excessivas ou concentradas em poucos dias podem atrasar a colheita, dificultar a entrada de máquinas, elevar os custos de secagem dos grãos e aumentar a incidência de doenças fúngicas. Portanto, mais importante do que o volume total é observar a distribuição das chuvas ao longo do ciclo das culturas.

No Paraná alguns municípios estão prejudicados com as fortes chuvas e Adrianópolis enfrenta uma das situações mais críticas, com a ligação direta com Curitiba interrompida após o rompimento de trechos da BR-476. O município possui agricultura familiar e sistemas agroflorestais que produzem banana, mandioca, palmito, hortaliças e outras frutas. Em Cerro Azul, comunidades rurais também ficaram isoladas pela cheia dos rios e por danos nas estradas.

O município é um importante polo de citricultura, especialmente de tangerina ponkan, além de produzir mandioca, milho, feijão e hortaliças destinados aos mercados locais, a Curitiba e à Região Metropolitana. Em Tunas do Paraná, o bloqueio da BR-476 afeta uma agricultura familiar diversificada, com hortifrutigranjeiros, mel e produtos de pequenas agroindústrias comercializados em feiras e programas institucionais.

Doutor Ulysses, por sua vez, tem destaque nas cadeias de citros e mandioca, enquanto as comunidades rurais enfrentam restrições de acesso e falta de energia. No Sul do estado, a cheia do Rio Iguaçu isolou bairros e áreas ribeirinhas de União da Vitória, região produtora de erva-mate, milho, feijão, leite, abóbora, frutas, verduras e produtos processados pela agricultura familiar. A preocupação se estende aos próximos meses.

Segundo o Simepar, o Paraná poderá registrar, até o verão de 2026/2027, maior frequência de períodos com chuva acima da média, com possibilidade de grandes volumes concentrados em poucos dias. Para a primavera de 2026, as projeções indicam um cenário de forte contraste regional. O El Niño apresenta probabilidade superior a 90% de atingir intensidade muito forte no trimestre entre setembro e novembro.

No Sul, o excesso de umidade pode prejudicar culturas de inverno, como o trigo e a aveia, favorecendo doenças como a giberela e reduzindo a qualidade dos grãos. Também pode limitar as janelas de preparo do solo e de plantio da soja e do milho. Já nas regiões centrais e do Norte, o maior risco é o atraso das chuvas regulares, que pode comprometer a germinação, provocar replantios e pressionar os custos de irrigação e de suplementação alimentar dos rebanhos.

Em relação aos preços, ainda não é tecnicamente possível indicar um percentual de aumento apenas com base na previsão de chuva. Os preços dependem da extensão das áreas atingidas, da fase em que cada cultura se encontra, dos estoques disponíveis, dos custos de transporte, do câmbio e da duração dos eventos climáticos. Os efeitos mais rápidos costumam aparecer em hortaliças, legumes e frutas, que são produtos perecíveis e mais sensíveis a perdas no campo e interrupções logísticas.

Os bloqueios nas estradas dificultam o escoamento da produção e a chegada de insumos às propriedades, com impacto mais imediato sobre leite, frutas, verduras e legumes. Além disso, o excesso de umidade pode comprometer a qualidade do trigo e atrasar o plantio de soja, milho e feijão no Paraná. Para o consumidor, podem ocorrer aumentos pontuais em produtos perecíveis e nas regiões com maiores dificuldades de transporte.

Entretanto, uma alta generalizada dos alimentos dependerá da duração das interdições e da confirmação das perdas no campo. Nos grãos e nas proteínas animais, os impactos normalmente aparecem de forma mais gradual. Caso ocorram atrasos importantes no plantio ou perdas de produtividade da soja e do milho, poderá haver pressão posterior sobre os preços das rações e, consequentemente, sobre carnes, leite e ovos.

Entretanto, o Brasil encerra a safra 2025/26 com produção de grãos estimada em cerca de 360,8 milhões de toneladas, o que oferece alguma proteção contra uma elevação generalizada e imediata dos alimentos. Portanto, há risco de aumentos pontuais, especialmente nos hortifrutigranjeiros, mas uma alta generalizada dependerá da confirmação de perdas agrícolas relevantes. Neste momento, o cenário exige monitoramento e planejamento, mas não permite afirmar que todos os alimentos ficarão mais caros.

* Paula Cristiane Oliveira Braz é administradora, especialista em Agronegócios e tutora dos cursos de pós-graduação na área na Uninter.

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Autor: Paula Cristiane Oliveira Braz*
Créditos do Fotógrafo: SEIL/Agência Estadual de Notícias


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