Câncer de mama triplo-negativo desafia a ciência e inspira pesquisa premiada

Autor: Ketlyn Laurindo da Silva - Estagiária de Jornalismo

Uma pesquisa sobre novas estratégias para o tratamento do câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença, rendeu à pesquisadora Camila de Almeida Salvego a mais importante honraria do país no setor de tecnologia e ciência nuclear. Professora da Escola Superior de Saúde Única (ESSU) da Uninter, Camila recebeu o Prêmio CNEN 2026, concedido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear.

A premiação ocorreu em 13 de outubro de 2026, durante a cerimônia de comemoração dos 70 anos da CNEN, realizada na Casa Firjan, no Rio de Janeiro. Camila foi a vencedora na categoria Pós-Graduação Stricto-Sensu Doutorado.

Intitulada “Avanços em novas estratégias para o tratamento do câncer de mama triplo-negativo: integrando nanotecnologia, radiação e fotônica”, a tese investiga alternativas para potencializar tratamentos oncológicos e superar mecanismos de resistência das células tumorais. O estudo foi desenvolvido sob orientação da pesquisadora Martha Simões Ribeiro, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN).

O reconhecimento ocorre em um cenário no qual pesquisas voltadas à saúde das mulheres buscam compreender as particularidades dos diferentes tipos de câncer de mama. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), mulheres negras apresentam uma probabilidade 57% maior de morrer em decorrência da doença quando comparadas às mulheres brancas. O instituto investiga fatores sociais, ambientais, comportamentais e biológicos associados a maior ocorrência de subtipos agressivos nessa população.  

De acordo com um relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), o câncer de mama triplo-negativo representa aproximadamente de 10% a 20% dos casos da doença. Caracterizado pelo crescimento acelerado e maior risco de metástase, o subtipo apresenta maior probabilidade de recorrência precoce e pior prognóstico em comparação com outras formas de câncer de mama.

A agressividade da doença e as limitações dos tratamentos convencionais motivaram Camila a investigar novas possibilidades terapêuticas. Segundo a pesquisadora, uma das dificuldades está relacionada à baixa oxigenação de determinadas regiões dos tumores, condição que pode reduzir a eficácia da radioterapia.

“Nosso principal objetivo foi investigar como a nanotecnologia poderia potencializar diferentes tratamentos contra o câncer de mama. Estudamos estratégias para tornar os tumores mais sensíveis a radioterapia, aprimorar a braquiterapia e utilizar nanopartículas de ouro em tratamentos que empregam luz e calor para destruir células tumorais”, explica.

A pesquisa reúne diferentes abordagens experimentais que combinam nanotecnologia, radiação e fotônica. Uma das estratégias investigadas utiliza nanopartículas capazes de liberar óxido nítrico, substância que pode contribuir para aumentar a sensibilidade das células tumorais à radioterapia.  De acordo com informações publicadas pela CNEN, os experimentos realizados por Camila em laboratório demonstraram aumento da morte celular, enquanto os testes em modelos animais indicaram redução do crescimento tumoral e das metástases.

Outra etapa do estudo avaliou a braquiterapia, modalidade de radioterapia que utiliza fontes de radiação posicionadas próximas ou no interior da região a ser tratada. A investigação identificou resultados relacionados ao controle do crescimento tumoral e, por meio de simulações computacionais, analisou o potencial das nanopartículas de ouro para intensificar a dose de radiação recebida pelo tumor. 

A pesquisadora desenvolveu ainda um modelo experimental conhecido como tumor em chip, que reproduz características do ambiente tumoral em laboratório. A tecnologia permitiu investigar os efeitos de tratamentos que utilizam nanopartículas de ouro ativadas por luz infravermelha para produzir calor e destruir células cancerígenas.  Apesar dos resultados promissores, Camila ressalta que as estratégias ainda precisam de novas investigações. Entre as questões em aberto estão a segurança das nanopartículas, sua distribuição pelo organismo e os mecanismos envolvidos em sua eliminação.

Para Camila, dar visibilidade às pesquisas sobre o câncer de mama triplo-negativo contribui para ampliar o debate sobre a doença e chamar a atenção da sociedade e dos responsáveis por investimentos em ciência. A professora considera igualmente importante o reconhecimento de mulheres pesquisadoras, como forma de incentivar meninas e jovens a ingressarem na carreira científica. 

A premiação representa um marco na trajetória acadêmica de Camila, que desde a graduação, desejava conhecer a CNEN e seus institutos de pesquisa. Para ela, o reconhecimento ganha um significado especial por ocorrer durante as comemorações dos 70 anos da instituição.

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Autor: Ketlyn Laurindo da Silva - Estagiária de Jornalismo
Edição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Arquivo pessoal


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