A educação na encruzilhada: entre a libertação e a utilidade

Autor: Dinamara Machado e Daniel Tedesco

No palco complexo da educação, a divisão entre uma abordagem humanista e a utilitarista, capitaneada pelo Estado, emerge como um ponto crucial para nossa sociedade diante de alguns dados apresentados recentemente no Censo Escolar e no Censo da Educação Superior, referentes ao ano de 2022:  

  • A taxa de reprovação nos anos iniciais do ensino fundamental na rede privada aumentou entre 2020 e 2021 e se manteve estável na última apuração. Na rede pública, a taxa de reprovação aumenta há dois anos e atingiu 4,2% nesta edição do censo. Isso acende um alerta, demonstrando uma possível falta de suporte necessário para os alunos, que pode ter sido agravada pela aprovação automática, adotada por algumas redes de ensino durante a pandemia 
  • O índice de evasão no ensino médio na rede pública aumentou para 6,5% em 2022. Os dados mostram que a principal causa da desistência é o fator socioeconômico. Os alunos deixam de frequentar a escola para trabalhar ou para cuidar de familiares.  
  • Nos dados do Censo da Educação superior 2022, os números também são preocupantes. Enquanto a média de pessoas entre 25 e 34 anos com educação superior em 38 países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 47%, o Brasil apresenta apenas 23% nessa faixa etária com ensino superior.

Se faz necessária uma reflexão sobre os rumos da educação, destacando dois paradigmas: a educação para a emancipação humana ou a educação estatal utilitarista. Simplificando: enquanto uma é uma tentativa de tornar o indivíduo livre – haja vista o sentido da palavra “emancipar” – a outra é também uma tentativa de formar um indivíduo útil – em um sentido laboral. 

A educação é um processo que vai além da transmissão de conhecimento. É um processo de formação humana, que envolve o desenvolvimento de todas as dimensões do ser: cognitiva, afetiva, social e moral. A educação institucional, aquela que ocorre nas escolas e universidades, é um dos principais espaços para a formação humana.  

Com efeito, a visão de uma educação emancipadora estabelece um compromisso profundo e irrevogável com a formação integral do indivíduo, considerando o ser humano em todas as suas dimensões. Ao considerá-la, o professor e o aluno se encontram em um diálogo enriquecedor, onde a singularidade de cada pessoa do processo é valorizada. O olhar nos olhos, mesmo mediado pela tecnologia, ressalta a importância da conexão interpessoal no processo educacional. 

Em contrapartida, a educação estatal, muitas vezes, é percebida como uma engrenagem voltada exclusivamente para alimentar as demandas do mercado de trabalho. A crítica aponta para um fetiche na educação capitalista, onde se tem uma busca frenética por profissões, tanto do passado quanto do presente e do futuro, o que pode desviar o foco da essência da aprendizagem. A massificação resultante desse paradigma pode transformar a sala de aula em um ambiente de (re)produção, negligenciando as necessidades individuais, e desumanizando as relações fundamentais da educação. 

Diante disso, é gerada uma distorção em algumas instituições de ensino superior que oferecem cursos na modalidade EAD, na qual a relação de alunos por professor é desumana. Acreditamos que a crítica do MEC deva ser redirecionada às instituições que adotam essa filosofia, que é uma reação a esse ensino utilitarista em massa acrítico. A tecnologia deve ser encarada como aliada para humanizar a educação, conectando professores e alunos em um espaço virtual que transcende as barreiras físicas, em uma perspectiva inclusiva, pensando na inclusão daqueles que não tem condições de estar presencialmente em uma Instituição de Ensino Superior. 

* Dinamara Pereira Machado é diretora e professora na Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas da Uninter. Pós-doutora em Educação pela Universidade Nacional de Educación a Distancia (UNED). Doutora em Educação pela PUC-SP. Mestrado em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná. Especialista em Qualidade e Educação. Graduação em Letras, Pedagogia, Geografia e História.

* Daniel Guimarães Tedesco é Doutor em Física pela UERJ e professor da Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas na Uninter.

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Autor: Dinamara Machado e Daniel Tedesco
Créditos do Fotógrafo: Pexels


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