Volta às aulas: acolher as emoções é tão importante quanto preparar a mochila

Autor: *Paloma Herginzer

O retorno às aulas costuma ser tratado como um momento de reorganização da rotina familiar. Uniformes são separados, materiais escolares são conferidos e os horários voltam, gradativamente, ao normal. No entanto, em meio a tantas preocupações práticas, um aspecto fundamental ainda recebe menos atenção do que deveria: o preparo emocional das crianças para enfrentar essa transição.

É comum que muitos adultos interpretem o choro, a resistência para ir à escola ou as queixas de dores de barriga como “manha” ou falta de vontade. Na realidade, esses comportamentos podem representar manifestações legítimas de ansiedade diante de mudanças. Afinal, as férias oferecem uma rotina mais flexível e maior convivência com a família. Retornar à escola significa lidar novamente com regras, novas relações e expectativas.

Um dos maiores desafios da educação atual não é apenas ensinar conteúdos, mas também formar indivíduos capazes de reconhecer e lidar com as próprias emoções. Durante muito tempo, sentimentos como medo, insegurança e tristeza foram minimizados por frases como “isso passa” ou “você precisa ser forte”. Essas respostas podem transmitir a ideia de que sentir emoções negativas é inadequado.

Quando uma criança percebe que pode falar sobre seus sentimentos sem ser julgada, desenvolve maior confiança para enfrentar situações desafiadoras. Escutar com atenção, acolher suas preocupações e explicar que sentir ansiedade diante de mudanças é natural fortalece sua segurança emocional. Mais do que resolver imediatamente o problema, os adultos precisam demonstrar disponibilidade para acompanhar esse processo.

Outro aspecto importante é a previsibilidade. Retomar gradualmente os horários de sono, organizar os materiais escolares e conversar sobre a nova rotina são estratégias simples que ajudam a reduzir a ansiedade e proporcionam maior sensação de segurança.

Além da família, a escola exerce papel essencial nesse processo. Professores e equipes pedagógicas precisam compreender que cada criança possui seu próprio ritmo de adaptação. Algumas retomam rapidamente as atividades, enquanto outras necessitam de mais tempo e acolhimento. Respeitar essas diferenças fortalece o vínculo entre escola, estudante e família.

Preparar uma criança para a volta às aulas vai muito além da compra de materiais escolares ou da reorganização dos horários. Significa oferecer um ambiente seguro para que ela reconheça suas emoções e desenvolva recursos para enfrentá-las de forma saudável.

O verdadeiro sucesso no retorno escolar não está apenas na rapidez com que a criança retoma sua rotina, mas na qualidade do suporte emocional que recebe. Quando família e escola atuam de forma integrada, oferecendo acolhimento, diálogo e segurança, a volta às aulas torna-se uma oportunidade de crescimento, autonomia e fortalecimento do desenvolvimento socioemocional.

*Paloma Herginzer é formada em Licenciatura em Educação Física, especialista em Educação Especial e Inclusiva e Formação Docente EAD. Além disso, é professora tutora dos cursos da área da educação de pós-graduação da Uninter.

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