Quando a morte nos convida a olhar para a vida
Autor: *Aline Mara Gumz Eberspacher
Na última semana, circulou nas redes sociais a notícia da morte de Tiago Pitthan, que era, a princípio um “cidadão comum”: advogado e turismólogo, morador de Mato Grosso do Sul. Sua morte chamou atenção não apenas pela trajetória interrompida pelo câncer, mas pela forma pouco convencional de como decidiu se despedir.
Diagnosticado com câncer de estômago em 2024, Tiago descobriu, durante uma cirurgia, que a doença já havia se espalhado e que não havia possibilidade de cura. Diante dessa realidade, tomou uma decisão incomum: realizar um velório em vida.
O encontro aconteceu em 30 de maio, em Campo Grande, e reuniu familiares e amigos em uma celebração marcada por música, abraços, risadas e homenagens. Nos vídeos compartilhados nas redes sociais, Tiago aparece feliz, cantando e reafirmando que sua vida valeu a pena, que cada experiência teve significado e que partia em paz.
A repercussão de sua história talvez revele mais sobre nós do que sobre ele. Em diferentes culturas, a morte é compreendida de formas distintas. Algumas tradições enfatizam o recolhimento e a dor; outras valorizam a celebração da passagem e do legado deixado. Apesar das diferenças religiosas e culturais, existe um ponto comum: todas reconhecem que a morte é inegociável, e parte inevitável da experiência humana.
Embora saibamos que a morte é a única certeza da vida, vivemos como se ela fosse um acontecimento distante, reservado aos outros. Planejamos ser felizes mais tarde. Adiamos viagens, encontros, reconciliações e sonhos para um futuro que imaginamos garantido.
Esperamos o momento ideal, a estabilidade financeira, a aposentadoria, o emprego melhor, o corpo desejado ou as circunstâncias perfeitas para viver e ser feliz. Construímos nossa felicidade no tempo futuro, como se a vida estivesse sempre prestes a começar.
Mas a história de Tiago nos confronta com uma verdade desconfortável: o amanhã é uma possibilidade, não uma promessa.
Quantas palavras importantes permanecem não ditas? Quantos pedidos de desculpas ficam para depois? Quantas demonstrações de carinho são adiadas por orgulho, falta de tempo ou simples hábito? Muitas vezes agimos como se tivéssemos um estoque infinito de oportunidades, quando, na realidade, desconhecemos quantas ainda teremos.
Talvez o aspecto mais marcante do velório em vida não tenha sido a proximidade da morte, mas a valorização daquilo que ainda existia. Tiago escolheu ouvir em vida as homenagens que normalmente são feitas diante de um caixão. Escolheu celebrar as relações construídas ao longo do caminho. Escolheu estar presente.
Seu gesto nos leva a uma reflexão importante: por que esperamos momentos extraordinários para reconhecer pessoas, agradecer, demonstrar afeto ou celebrar conquistas? Por que deixamos para depois aquilo que já poderia ser vivido agora?
A morte continuará sendo um mistério. Mas a vida, não. Ela acontece no presente, entre imperfeições, rotinas e pequenos encontros. Talvez a principal lição deixada por Tiago seja justamente essa: viver não é aguardar as condições ideais, mas encontrar significado nas condições que já existem.
No final das contas, uma vida bem vivida não é medida apenas pela quantidade de anos acumulados, mas pela capacidade de estar verdadeiramente presente em cada um deles.
*Aline Mara Gumz Eberspacher – Coordenação Pós-Graduação| Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Uninter.
Autor: *Aline Mara Gumz EberspacherCréditos do Fotógrafo: Reprodução Instagram
