Likes e exploração infantil: o que a nova lei do influenciador digital não protege
Autor: Sheron Mendes*
Com a nova Lei nº 15.325, a profissão de “influenciador digital” ganhou crachá e regras. Afinal, era preciso colocar ordem no mundo digital, exigindo transparência em publicidades e responsabilidade sobre o que é dito. Mas, enquanto discutimos se um guru de finanças sem diploma pode dar dicas de investimento, uma questão muito mais espinhosa continua sendo ignorada: o exército de crianças trabalhando como garotos-propaganda em tempo integral, direto de seus quartos.
Não me entendam mal, a regulamentação é um avanço. Mas ela foca no profissional adulto e deixa os “influenciadores mirins” em um limbo perigoso. Para eles, a lei recorre a uma gambiarra jurídica: equiparar seu “trabalho” ao de um ator mirim de novela, exigindo autorização judicial. Só que há uma diferença brutal entre atuar em um set controlado, com horas contadas, e ter sua vida inteira transformada em um reality show 24/7, monetizado pelos próprios pais.
E é aqui que a neurociência acende um alerta vermelho piscante. O cérebro de uma criança, especialmente na primeira infância, é uma argila fresca. Cada estímulo, cada interação, molda as conexões neurais que definirão sua saúde mental e emocional para o resto da vida. Agora, imagine submeter essa estrutura delicada a um bombardeio constante de validação por likes. A criança aprende que seu valor é medido por números. Quando os números caem, a autoestima despenca. Isso não é uma brincadeira; é treinar um cérebro para a dependência de aprovação externa.
Podemos também tratar da performance da felicidade. A vida vira um falso roteiro. O que é público e privado se perde e tudo passa a ser “instagramável”. A criança perde a capacidade de viver o momento presente e a espontaneidade, pois está sempre atuando.
Também nos deparamos com a superexposição e estresse. Os momentos particulares, de ócio, de tempo de qualidade, essenciais para o cérebro consolidar aprendizados, são sacrificados em nome do “conteúdo”. Essa superestimulação pode levar a níveis elevados de cortisol (o hormônio do estresse), resultando em ansiedade, distúrbios de sono e irritabilidade.
A nova lei de influencers, ao não endereçar essa questão de frente, legitima indiretamente uma nova e sofisticada forma de trabalho infantil. Chamamos de “compartilhar momentos fofos”, mas quando há contratos, publicidade e uma agenda de postagens, o nome correto é trabalho. Exploração do trabalho infantil, que rouba da criança o direito fundamental de ser apenas criança.
A regulamentação dos influenciadores adultos é um passo necessário, mas é apenas o começo. Precisamos de coragem para olhar para esses perfis de sucesso, com milhões de seguidores e faturamento, e perguntar: quem está pagando o verdadeiro preço por trás desses sorrisos ensaiados? A conta, infelizmente, está sendo paga nas sinapses de uma geração cujo cérebro foi treinado para não distinguir o que é viver do que é performar.
* Sheron Mendes é bióloga, especialista em neurociência do comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na Uninter.
Créditos do Fotógrafo: Ron Lach/Pexels
