Fibromialgia: quando a dor não aparece no exame, ela deixa de existir?
Autor: Vaniele Silva Pinto Pailczuk*
Fevereiro Roxo é a campanha que chama atenção para a fibromialgia. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a condição afeta cerca de 2% a 3% da população, com predominância entre mulheres. Em 2025, a Lei nº 15.176/2025 foi publicada no Diário Oficial da União e entrou em vigor em janeiro deste ano, garantindo às pessoas com fibromialgia os direitos previstos às pessoas com deficiência, desde que comprovadas limitações funcionais por avaliação multiprofissional. É um avanço jurídico. Mas, na prática, a lei apenas formaliza algo que pacientes já vivem há anos: limitação real, diária e incapacitante.
A fibromialgia é caracterizada por dor musculoesquelética difusa por mais de três meses, fadiga intensa, sono não reparador e alterações cognitivas a chamada “névoa mental” além de cefaleia e distúrbios gastrointestinais. O diagnóstico é clínico, geralmente realizado pelo reumatologista, já que exames laboratoriais e de imagem costumam estar normais.
Mas os critérios técnicos não traduzem a experiência vivida. Às vezes, o toque de alguém amado dói. Um abraço apertado incomoda. Um simples aperto de mão pode ser doloroso. Não é fácil acordar todos os dias com uma dor que irradia pelo corpo inteiro. O próprio corpo pesa absurdamente e, muitas vezes, nada parece trazer alívio.
A ciência explica esse fenômeno pela sensibilização central: o sistema nervoso amplifica estímulos dolorosos. Ainda assim, muitos pacientes escutam que é “emocional” ou “exagero”. A dor invisível continua sendo desacreditada. O tratamento não é imediato nem milagroso e essa é uma das maiores frustrações. Leva tempo para encontrar a medicação adequada. Ajustes e trocas fazem parte do percurso. Para alguns, as possibilidades terapêuticas parecem pequenas diante da intensidade dos sintomas.
A atividade física é apontada como uma das intervenções mais eficazes. Concordo com a evidência. Mas também vejo a realidade: há dias em que a crise não passa. Há dias em que o paciente mal consegue segurar um copo d’água, quem dirá se exercitar. Simplificar essa orientação é ignorar a complexidade da dor crônica.
Como enfermeira, acompanhei afastamentos do trabalho, crises incapacitantes, sofrimento psíquico e desgaste nas relações. A fibromialgia não compromete apenas músculos compromete projetos de vida.
O verdadeiro desafio não é apenas garantir direitos legais. É mudar mentalidades. Reconhecer juridicamente é importante; reconhecer no cotidiano é urgente. Fevereiro Roxo não pode ser apenas campanha simbólica. Precisa ser um chamado à escuta qualificada e à construção de políticas públicas que levem a dor invisível a sério. Porque quando até um abraço dói, o que falta não é força de vontade. É compreensão.
*Vaniele Silva Pinto Pailczuk, enfermeira, especialista em UTI/Urgência e Emergência, professora e mediadora dos cursos de pós-graduação na área da saúde no Centro Internacional Uninter.
Autor: Vaniele Silva Pinto Pailczuk*Créditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Kindel Media/Pexels
