Cuidado: pandemia agrava problemas de saúde mental

Autor: Matheus Pferl - Estagiário de Jornalismo

A saúde mental passou a ser um tema de interesse prioritário no contexto da pandemia. Durante a 2ª Maratona de Saúde , o psiquiatra Erico Kohl foi convidado a falar sobre o tema Sanidade mental pós-pandemia. Como cuidar da nossa mente e evitar os vários problemas invisíveis que podem surgir com a falta de convívio social e a falta de rotina? Kohl foi entrevistado pelo diretor da Escola de Saúde, professor Rodrigo Berté, num evento que teve apresentação da professora Patrícia Rondon.

Quando a pandemia nos atingiu, em março de 2020, ninguém imaginava que mais de um ano depois ainda estaríamos vivendo o distanciamento social e enfrentando tantas mudanças em nossas vidas. Devido ao longo tempo de isolamento, a saúde mental tem sido um tema recorrente, pois é um dos principais aspectos afetados da saúde.

As pessoas estão nervosas, estressadas, chateadas, vivendo alguns cenários bastante complicados. O próprio convívio no dia a dia está desgastado, e a convivência é totalmente em casa. Isso resultou em um aumento na violência familiar e em problemas de relacionamento.

“O ser humano vive um momento de incerteza, estamos de mãos atadas, não sabemos quando vai acabar. Devido a essa situação ameaçadora, ocorrem alguns atos impensáveis de agressividade, atos intempestivos, e isso é uma resposta ao lidar com essas situações de incerteza, mentalmente estamos sofrendo muito”, afirma Erico Kohl. Confira abaixo alguns trechos da conversa.

Rodrigo Berté: Houve um aumento grande da aquisição e compra de remédios controlados. É comum no ser humano buscar um amuleto, esses medicamentos podem ajudar ou tornam a pessoa dependente?

Erico Kohl: Devemos ter muito cuidado. Os remédios mais fortes devemos usar somente com prescrição médica, pois podem causar dependência. Devem ser usados sob supervisão médica, não podem ser usados como amuleto. A todo momento somos bombardeados com informações tristes e catastróficas. Ontem atingimos a marca de 400 mil mortes. Achamos que jamais passaríamos por isso hoje, e estamos fazendo uso de medicamento sem prescrição e sem o devido acompanhamento, isso causa outros problemas graves, portanto não é aconselhado.

Berté: Quais os danos psicológicos do confinamento, a piora do estado mental é real?

Kohl: Sim, houve um aumento dos casos de depressão e ansiedade. A depressão já é um problema mundial. Segundo estudos da UFRJ, os casos de depressão aumentaram em torno de 40% e 50%. É muita coisa. As relações mudaram, o convívio familiar foi imposto, não temos mais fuga social e temos que conviver forçadamente por todo tempo, e as relações estão complicadas. Perdemos a capacidade de olhar no olho e ter uma boa conversa. Os casos de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático em virtude do vírus estão ocorrendo muito também. Pessoas que têm toc e mania de limpeza têm aumentado significativamente esses comportamentos. A saúde mental em âmbito global está precisando de ajuda, precisamos de todos os profissionais para ajudar. Os investimentos em saúde mental terão que se tornar prioridade, não só em adultos, mas também em crianças e idosos. Eu gosto de olhar de uma maneira otimista, nós podemos aprender com o que estamos vivendo para melhorar.

Berté: Como lidar com as frustrações do coronavírus?

Kohl: Eu digo que temos que olhar com uma visão positiva, temos que extrair lições e ensinamentos para sair do problema. É construir uma nova rotina, usar nossa capacidade de criação. Temos que nos preparar como se fosse um dia de trabalho normal no ambiente de trabalho, para trazer um senso de normalidade, e isso traz algo positivo psicologicamente. Devemos buscar informações de qualidade, que não pregam tanto a catástrofe. Não podemos ser alheios, mas não precisamos nos massacrar. Distanciamento social não é um distanciamento afetivo, devemos ter um abraço virtual, uma mensagem de carinho, afetuosa. Devemos trazer opções criativas para nosso lazer e fazer exercícios dentro de casa. Isso tudo ajuda muito.

Berté: Houve aumento de problemas de saúde mental diagnosticados, quais foram os mais predominantes?

Kohl: Sem dúvidas o transtorno de ansiedade, transtorno de pânico, fobias, transtornos depressivos e síndrome de burnout (síndrome de esgotamento profissional). Provavelmente vamos ouvir muito falar disso nos próximos anos, além do aumento de toc de limpeza.

Berté: A rede de saúde mental estava preparada para atender toda essa demanda?

Kohl: Falo pela minha região aqui de São Paulo. A gente sempre quer uma maior estrutura, mas temos sim uma boa rede. Em nível nacional, não tenho tanta certeza. Acredito que vamos ter que dedicar um olhar especial para a saúde mental e oferecer uma maior rede de apoio. Em nível nacional acho que falta muito, apesar dos avanços.

Berté: Muitas pessoas não estão conseguindo dormir à noite, isso está voltado a um transtorno de ansiedade pelo cenário atual?

Kohl: Sim, devemos tomar cuidado e potencializar os cuidados com a nossa saúde, fazer exercícios, cuidar com o álcool, praticar atividades calmas e relaxantes que vão ajudar muito no nosso sono, entre outros. A noite foi feita para dormir, temos que cuidar com os medicamentos também. Esse processo de ansiedade com certeza leva a um problema de insônia.

Enrico Kohl acrescenta ainda que para as crianças é ainda mais difícil lidar com a situação. “As crianças perderam todo o convívio, as brincadeiras e as diversões, e eles ainda não têm maturidade para saber o que estamos vivendo. Devemos falar com calma e tentar explicar o momento para as crianças. Temos que exercitar o diálogo, olhar nos olhos, abraçar. Temos que falar a verdade e reaprender a ter um convívio saudável”, comenta.

Já para os idosos, ele afirma que temos que manter um olhar igualmente atento e especial. “Precisamos mantê-los conectados, vamos ensiná-los a mexer nas redes sociais, temos que ter paciência para ensinar, um bom diálogo, ter empatia, afeto e carinho e oferecer atenção, não podemos deixá-los de lado”, conclui.

Você pode acompanhar a gravação completa da conversa pela página oficial do evento no Facebook.

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Autor: Matheus Pferl - Estagiário de Jornalismo
Edição: Mauri König
Revisão Textual: Jeferson Ferro
Créditos do Fotógrafo: Gioele Fazzeri /Pexels e reprodução Facebook


1 thought on “Cuidado: pandemia agrava problemas de saúde mental

  1. Excelente entrevista dr Érico! Realmente essa pandemia está abalando muito tds nós; inclusive idosos e principalmente às crianças como vc disse !Temos que nos reinventar pra conseguirmos suportar tal situação! Saúde mental é prioridade no momento! Vamos nos cuidar sempre seguindo orientações de um psiquiatra!

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