Em Canções do Atlântico, Priscilla Novaes transforma pesquisa histórica em travessia musical

Priscila Novaes durante gravação e arranjos de Canções do Atlântico. Foto: Evandro Novaes

Música, literatura, pesquisa e História se unem em “Canções do Atlântico”, novo álbum de Priscilla Novaes que será lançado dia 29 de outubro, e propõe uma travessia entre a cultura brasileira e a Península Ibérica. Historiadora, escritora, cantora e compositora, a artista transforma memória, ancestralidade e investigação histórica em música, construindo um projeto que aproxima territórios separados pelo oceano, mas conectados por séculos de trocas culturais. O trabalho já começa a repercutir também do outro lado do Atlântico, despertando o interesse de músicos, pesquisadores e veículos de comunicação espanhóis.

Priscilla Novaes se apaixonou pela música ainda na infância. Aos 10 anos, passou a integrar um coral de cantatas na igreja que frequentava. Três anos depois, tornou-se a backing vocal mais jovem da banda em que seu pai atuava como contrabaixista. Aos 16 anos, aprofundou os estudos de canto e teoria musical, ao mesmo tempo em que intensificava sua experiência nos palcos. Mas sua trajetória nunca se limitou à música.

Movida pelo desejo de compreender o que existe por trás das manifestações culturais que sempre a encantaram, Priscilla decidiu cursar Bacharelado em História na Uninter. A formação acadêmica ampliou seu interesse pelas relações entre cultura, memória e circulação de tradições ao longo do tempo. “Passei a me perguntar de onde vêm determinados instrumentos, como determinadas tradições atravessaram o tempo, o que permanece quando uma cultura entra em contato com outra e como essas manifestações se transformam ao longo das gerações”, explica.

Esses questionamentos levaram a artista a pesquisar as conexões entre a Península Ibérica, o universo celta e o Brasil. Essas relações também fazem parte de sua história familiar. Um de seus bisavôs veio de Granada, na Espanha, e o outro de Trás-os-Montes, em Portugal. Mas a conexão, segundo ela, vai muito além da genealogia. Em suas pesquisas, Priscilla encontrou na carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, referências aos instrumentos de sopro presentes nas embarcações portuguesas, tradicionalmente associados às gaitas, evidenciando como determinadas tradições musicais atravessaram o oceano e chegaram ao Brasil.

“O próprio Atlântico se tornou uma imagem muito importante para mim. Durante muito tempo pensamos no oceano como aquilo que separa territórios, mas ele também foi um grande caminho de circulação. Por suas águas viajaram pessoas, culturas, instrumentos, línguas, crenças e formas de expressão”, pontua. “Mas esses encontros foram muitas vezes complexos, marcados também por conquistas, violência, deslocamentos forçados e desigualdades. Por isso, Canções do Atlântico não pretende romantizar esses processos, nem contar uma única história ou oferecer respostas definitivas. Nunca quis simplesmente reproduzir uma tradição europeia. Quis criar um diálogo a partir do lugar de onde venho”, conta.

Para Priscilla Novaes, o novo álbum é justamente uma travessia capaz de aproximar culturas distintas. O single “Mananciais” dá a essa ideia uma dimensão bastante concreta ao reunir a artista ao músico espanhol Jorge Prada Meyaro. “Queria criar um diálogo entre duas paisagens culturais. O violão e a minha voz trazem minha própria linguagem e o lugar de onde venho, enquanto a gaita traz consigo outra paisagem, outra tradição e outra memória. E existe algo muito simbólico nisso: um instrumento que atravessou o Atlântico séculos atrás volta agora a atravessá-lo, desta vez através da música, para participar de uma nova criação”, afirma.

Segundo a artista, o encontro com Jorge aconteceu de maneira bastante natural e toda a produção ocorreu à distância. O interesse pelo projeto, no entanto, ultrapassou rapidamente as fronteiras brasileiras. Nos últimos meses, Canções do Atlântico apareceu em veículos de comunicação espanhóis e passou a chamar a atenção de músicos e pesquisadores ligados às tradições presentes no álbum. Essa repercussão internacional foi recebida com entusiasmo, mas também com surpresa.

“Quando comecei a construir o álbum, meu objetivo principal era realizar um trabalho que fizesse sentido para mim artisticamente e pudesse estabelecer diálogos entre a música, a História e as culturas que fazem parte dessa pesquisa. Eu não imaginava, no início, que esse trabalho encontraria tão rapidamente pessoas interessadas nele do outro lado do Atlântico”, afirma.

Toda essa repercussão se torna combustível para que a artista continue produzindo e pesquisando. Para ela, arte e pesquisa caminham lado a lado: enquanto a História ajuda a compreender o passado, a música contribui para manter vivas memórias e tradições que atravessam gerações. Além disso, as canções podem funcionar como um ponto de partida para que as pessoas conheçam outras culturas, outras tradições e até mesmo a própria origem, algo que, para Priscilla, vai muito além de métricas e números.

“Se, depois de ouvir o álbum, alguém sentir vontade de pesquisar, conhecer uma história, ouvir uma música de outra cultura, olhar para o próprio passado com mais curiosidade ou simplesmente se sentir tocado por uma canção, já vou considerar que essa travessia encontrou seu destino”, conclui.

Assista aos clipes de Priscilla Novaes no canal dela no YouTube: https://www.youtube.com/@PriscillaRubioNovaes

 

 

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