Uninter forma a primeira turma de graduação em Psicanálise no Brasil
Autor: Yasmin Guedes – Assistente de Comunicação
Em 2021, o mundo vivia dias incertos devido à pandemia, e a saúde mental emergia como uma das grandes urgências daquele tempo. Foi nesse cenário que a Uninter tomou uma decisão ousada: criar o primeiro curso de graduação em Psicanálise do Brasil. Em 2026, a Uninter celebrou a formatura dos primeiros bacharéis em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais. O marco representa não apenas a conclusão de um ciclo acadêmico, mas também a consolidação de uma missão: levar o saber psicanalítico para além dos consultórios e dos grandes centros urbanos.
O curso nasceu da compreensão de que a Psicanálise, apesar de sua tradição centenária e de sua contribuição para diversas áreas do conhecimento, ainda era estudada no Brasil predominantemente em cursos de pós-graduação, formações livres ou como conteúdo complementar em outras graduações. O desafio, segundo o coordenador do curso, professor Cláudio Aurélio Hernandes, foi construir um projeto pedagógico que respeitasse a tradição psicanalítica e, ao mesmo tempo, atendesse a todos os critérios do ensino superior brasileiro. O professor Cláudio ressaltou também o papel crucial da professora Giseli Cipriano Rodacoski, coordenadora do curso à época de sua criação, reconhecendo sua contribuição no desenvolvimento do projeto.
Um dos pontos centrais do projeto é a distinção entre a formação acadêmica oferecida pela universidade e a formação completa do psicanalista, que envolve análise pessoal e supervisão clínica. “A graduação oferece uma formação universitária no campo dos estudos psicanalíticos. O estudante conhece profundamente a teoria, a história, os conceitos fundamentais, desenvolve pesquisa, extensão e competências acadêmicas e profissionais”, explica Hernandes.
“Já a formação do psicanalista segue outra lógica. Ela depende de um percurso singular, tradicionalmente sustentado pelo chamado tripé da formação: estudo teórico permanente, análise pessoal e supervisão clínica”. O coordenador ressalta que as duas formações não competem entre si, mas se complementam. A universidade oferece a base científica, crítica e acadêmica, enquanto a formação clínica ocorre posteriormente, em instituições e percursos próprios da tradição psicanalítica.
“Historicamente, o acesso ao estudo da Psicanálise esteve concentrado nos grandes centros urbanos. Muitas pessoas precisavam mudar de cidade ou simplesmente desistiam da formação por questões geográficas. O ensino a distância rompe essa barreira”, destaca o coordenador. “Ao democratizar o acesso ao conhecimento, ampliamos também a diversidade de olhares sobre a própria Psicanálise”. O formato de ensino à distância, aliado às atividades presenciais nos polos de apoio, permitiu que o curso chegasse a estudantes de todo o Brasil e de outros países. E foi justamente essa abrangência que deu à primeira turma um rosto plural. Dois desses rostos são os de Renata Silva e Patrícia Sales.
De Belém do Pará a Veneza: a expansão global do curso
Moradora de Veneza, na Itália, a egressa Renata Silva descobriu o curso da Uninter por indicação de um amigo. “Eu tinha o desejo de cursar psicologia, mas como moro na Itália, esbarrava em uma grande burocracia: o processo de tradução e validação de documentos escolares brasileiros”, relata Renata. A psicanálise, segundo ela, entrou em sua vida por acaso, quando procurava uma opção online. “Nunca tinha ouvido falar antes. Na hora pensei: ‘começa com psi, então deve ser algo relacionado à mente’. Decidi arriscar”. A escolha pela Uninter, combinou acessibilidade e acolhimento.
Morando há tantos anos fora do Brasil, sentiu a necessidade de se conectar novamente com a língua materna. “A psicanálise é um campo extremamente denso e subjetivo; por isso, percebi que cursá-la em português não só facilitaria o aprendizado acadêmico, mas tornaria a experiência de imersão nos conceitos muito mais orgânica e identitária. Estudar na Uninter acabou sendo, de certa forma, uma maneira de me sentir ‘em casa’.”
Renata ressalta que o conhecimento adquirido ao longo dos anos foi a base de sua prática clínica. “Foram quatro anos de imersão profunda na teoria psicanalítica, algo que cursinhos rápidos simplesmente não conseguem entregar. Esse conteúdo me dá uma direção muito clara no dia a dia do consultório.” Hoje, atua como psicanalista em Veneza, atendendo tanto brasileiros quanto italianos, e destaca a importância da graduação para sua trajetória. “Ter essa formação por trás mudou a minha vida: me deu uma nova profissão e um orgulho imenso de exercer a psicanálise fora do Brasil. No fim das contas, a Uninter construiu uma ponte real que legitima o trabalho de nós, brasileiros, em qualquer lugar do mundo”, afirma.
Ela destaca um diferencial importante: a inclusão dos “estudos sociais” na nomenclatura do curso. “Aqui na Itália, a forma como o curso é nomeado incluindo os ‘estudos sociais’ fez toda a diferença nas minhas oportunidades. Consegui me candidatar e conquistar vagas em instituições voltadas para iniciativas sociais, projetos com crianças e idosos. Trabalhos que antes eu não conseguiria acessar”. Ter esse título no currículo, segundo ela, deu credibilidade ao seu trabalho e ampliou seu leque de atuação profissional.
Já a egressa Patrícia Sales, natural do Pará, destaca que a psicanálise não foi uma escolha. Patrícia já era formada em Terapia Ocupacional e conta que seu primeiro contato com a psicanálise aconteceu ainda na faculdade, em 1999, quando encontrou na biblioteca “Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, de Freud. “Li a obra e tive a sensação de ter encontrado algo que fazia profundo sentido para mim. Foi um verdadeiro encontro.”
A graduação na Uninter, para ela, representou a possibilidade de construir um percurso teórico e acadêmico sólido. Patrícia ressalta que, desde o princípio, a Uninter transmitiu segurança e confiança, deixando claro o que se propunha a oferecer: um percurso de formação teórica. Da mesma forma, a instituição sempre salientou que, para atuar efetivamente como psicanalista, seria necessário buscar, paralelamente, a análise pessoal e a supervisão clínica.
Sobre o pioneirismo da Uninter, Sales destaca o caráter democratizante da iniciativa. “Esse movimento de democratização do conhecimento permite que um público mais amplo tenha a oportunidade de conhecer, estudar e, eventualmente, trilhar o caminho da formação psicanalítica. Trata-se de um público que, muitas vezes, não consegue ingressar nas escolas tradicionais de formação em razão dos elevados custos envolvidos.”
Formação que vai além da sala de aula
O curso conta com iniciativas que vão além da sala de aula virtual. O Programa de Monitoria, que atualmente tem 14 monitores de todo o Brasil e do exterior, cria espaços de acolhimento, grupos de estudo e acompanhamento da aprendizagem. Já o Programa Entre Nós, desenvolvido em parceria com o Centro de Apoio Psicopedagógico da Uninter, aproxima os estudantes da prática da escuta qualificada, voltada ao acolhimento da comunidade acadêmica. “Essas iniciativas ajudam a construir identidade acadêmica. O aluno deixa de ser apenas alguém que consome conteúdo e passa a participar efetivamente da vida do curso. Em um ambiente EAD, isso é ainda mais importante, porque cria vínculos, favorece trocas e fortalece o sentimento de pertencimento”, avalia Hernandes.
As egressas vivenciaram esses programas na prática. Renata participou da monitoria e do projeto Entre Nós, e descreve a experiência como transformadora. “A monitoria me aproximou dos processos internos, dos professores que são grandes referências e dos colegas. O projeto Entre Nós também foi incrível para recriar aquele clima de corredor de escola, que a gente tanto sente falta no EAD”. Ela conta que a monitoria foi um divisor de águas, pois a fez “sair da casca” e quebrou várias fantasias que tinha sobre a formação.
Patrícia também participou de ambos os programas. No Programa de Monitoria, ela atuou ao lado de outros colegas monitores, acolhendo estudantes recém-chegados e conduzindo grupos de estudo. “Acredito que trilhar esse caminho de forma solitária o torna muito mais difícil; quando estamos em grupo, o estudo e as trocas de experiências tornam-se mais dinâmicos e significativos.” No Projeto Entre Nós, ela teve a oportunidade de escutar e acolher estudantes que buscavam esse espaço, sempre sob supervisão de professores mais experientes. “Essa vivência nos permitiu um contato mais próximo com a prática e contribuiu significativamente para o nosso processo de formação”, afirma.
Para além da clínica, Patrícia encontrou na graduação um espaço para a pesquisa. Foi por meio da Uninter que ingressou no Programa de Iniciação Científica e participou ativamente da produção de trabalhos escritos no campo da psicanálise. Também desenvolveu um projeto de intervenção fundamentado em um dispositivo psicanalítico, experiência que resultou na apresentação do trabalho em um congresso realizado pela instituição. “Essa conquista representou uma grande realização pessoal e acadêmica”, conta.
Renata continua em formação permanente e realiza supervisão com professores da própria Uninter, mantém análise pessoal há seis anos e participa de eventos e grupos de estudo na Itália, como os do Fórum Lacaniano.
O coordenador Cláudio Aurélio Hernandes avalia que a formatura da primeira turma encerra um ciclo importante, mas representa apenas o começo. “Acredito que estamos vivendo um momento histórico para a Psicanálise brasileira. Não porque a universidade substitua a tradição psicanalítica, ela não substitui e nem pretende fazê-lo, mas porque amplia os espaços de produção, transmissão e pesquisa desse conhecimento.”
Ele destaca que o reconhecimento do curso pelo MEC e o conceito 4 obtido na avaliação são atestados da qualidade da formação oferecida. “Nossa expectativa é que os egressos sejam protagonistas dessa nova etapa, contribuindo para a pesquisa, para a docência, para as instituições e para o desenvolvimento da própria Psicanálise.”
Com egressos atuando em diferentes regiões do Brasil e no exterior, dedicando-se à clínica, à pesquisa e à docência, o curso de Bacharelado em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais da Uninter demonstra que a aposta na inovação acadêmica foi acertada. O conhecimento psicanalítico, antes restrito a círculos específicos, ganha agora novas vozes, novos olhares e novos horizontes. E como bem resumiu Renata: “Sair do Brasil, morar em Veneza e conseguir me reinventar profissionalmente parecia um desafio distante, mas a instituição me deu não apenas uma formação teórica de excelência, mas também o suporte humano necessário. Fazer parte dessa história pioneira mudou o rumo da minha vida pessoal e profissional.”
Autor: Yasmin Guedes – Assistente de ComunicaçãoEdição: Larissa Drabeski
Créditos do Fotógrafo: Pexels e Arquivo pessoal





