A geração que quer empreender antes do primeiro emprego

Autor: Cintya Santos*

O sonho do primeiro emprego já não ocupa o mesmo lugar entre muitos jovens brasileiros. Com maior acesso ao ensino superior, à tecnologia e às redes sociais, cresce o desejo de criar o próprio negócio antes mesmo da primeira experiência profissional. Segundo levantamento do Sebrae, baseado na PNAD Contínua/IBGE, a parcela de jovens empreendedores com ensino superior incompleto ou completo praticamente dobrou, passando de cerca de 14% em 2012 para aproximadamente 28% em 2025, evidenciando uma geração mais escolarizada e disposta a empreender.

Essa transformação é positiva, mas merece reflexão. Empreender não significa apenas “ser o próprio chefe”. Significa assumir riscos financeiros, liderar pessoas, tomar decisões estratégicas, lidar com incertezas e construir um negócio sustentável. A romantização do empreendedorismo pode levar muitos jovens a abandonarem oportunidades importantes de desenvolvimento profissional.

Outro dado chama atenção: embora mais qualificados, os jovens empreendedores ainda apresentam rendimento médio relativamente modesto. Em 2025, o rendimento médio habitual desse grupo foi de R$ 2.576 mensais, valor que demonstra evolução, mas ainda distante da ideia de enriquecimento rápido frequentemente difundida nas redes sociais.

Parte dessa realidade está relacionada à baixa educação financeira da população brasileira. A pesquisa de Educação Financeira da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o Brasil permanece abaixo da média internacional em conhecimentos financeiros, dificultando decisões sobre investimentos, fluxo de caixa, crédito e planejamento de longo prazo. Sem gestão financeira, muitos negócios encerram suas atividades precocemente.

Além das competências técnicas, empreender exige habilidades socioemocionais. comunicação, inteligência emocional, resiliência, pensamento crítico, negociação, adaptabilidade e liderança figuram entre as competências mais valorizadas para o futuro do trabalho, conforme o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial. Essas habilidades normalmente são desenvolvidas também nas experiências profissionais formais.

Nesse contexto, defender o “fim da carteira assinada” em um país marcado por profundas desigualdades sociais é uma visão simplista e, muitas vezes, perigosa. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) continua sendo uma importante rede de proteção social para milhões de brasileiros, garantindo renda, direitos previdenciários e estabilidade mínima enquanto competências profissionais são construídas.

O empreendedorismo é uma excelente alternativa para quem possui perfil, preparo e planejamento. Entretanto, nem todo jovem precisa empreender imediatamente, assim como nem todo empreendedor nasceu pronto. Em muitos casos, a experiência no mercado formal oferece aprendizados sobre gestão, liderança, relacionamento com clientes e processos que aumentam significativamente as chances de sucesso futuro.

A escolha entre CLT e CNPJ não deve ser ideológica, mas estratégica. Mais importante do que decidir como trabalhar é desenvolver competências, educação financeira e maturidade para construir uma carreira sustentável, independentemente do caminho escolhido.

*Cintya Santos é especialista em desenvolvimento de Liderança, Equipes e Gestão de Carreira, além de professora dos cursos de Administração e Gestão de Recursos Humanos da Uninter.

Incorporar HTML não disponível.
Autor: Cintya Santos*


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *