Dia da Mentira e as Fake News na ciência e saúde
Atualmente, temos acesso a um grande volume de informações. Embora essa ampla possibilidade traga benefícios, também apresenta aspectos negativos como a disseminação de desinformação, as chamadas fake news. Na área da saúde, a comunicação errada não é apenas uma opinião, e pode gerar riscos graves para o indivíduo e para a população. As fake news têm impacto no comportamento individual e coletivo, afetando a adesão a tratamentos, campanhas de vacinação, confiança nas instituições e até nas políticas públicas.
Um exemplo desse cenário envolve as vacinas na década de 1990. Um estudo fraudulento publicado na revista The Lancet relacionava, erroneamente, a vacina tríplice viral com o autismo. A revista e o próprio autor se retrataram e o artigo foi removido da base digital. Contudo, o impacto se arrastou por décadas, reduzindo a cobertura vacinal em diversos países.
Recentemente, no programa Roda Viva, a pesquisadora Tatiana Sampaio da UFRJ foi questionada sobre a possibilidade de os estudos com Polilaminina gerarem dúvidas semelhantes às que surgiram em torno da Cloroquina durante a pandemia de Covid-19. A pesquisadora explicou que, no início da pandemia, alguns artigos científicos sobre o uso da Cloroquina apresentavam inconsistências nos resultados, o que não ocorre nas pesquisas com Polilaminina. As publicações relacionadas à Cloroquina e à Covid-19 tiveram repercussão em diversos países, incentivando a automedicação. Essas provocaram efeitos adversos e uma falsa sensação de proteção. No contexto da Covid-19, o atraso na busca por atendimento especializado pode ser determinante para a recuperação ou até mesmo para o óbito do paciente.
A própria Polilaminina é um exemplo atual de como a desinformação pode se disseminar. Ela é um polímero derivado da proteína laminina que, entre outras funções no organismo, direciona o crescimento neuronal durante a formação da medula espinhal. Os estudos ainda se encontram em fase experimental e, recentemente, a Anvisa autorizou o início dos testes clínicos.
Até que a Polilaminina chegue às prateleiras de farmácias e hospitais, serão necessárias diversas fases de avaliação científica. Apesar disso, é comum encontrar na internet postagens e matérias, publicadas por fontes não oficiais, afirmando que já teria sido descoberta a cura para lesões da medula espinhal, paraplegia ou mesmo tetraplegia.
Prezar pela informação qualificada não é remover as expectativas otimistas de que essas conclusões se confirmem, mas até lá é necessário seguir um protocolo rigoroso de acordo com as diretrizes da ciência. A utilização da Polilaminina como medicamento ainda não passa de desinformação, podendo gerar falsas esperanças e frustrações em muitos pacientes e seus familiares.
Na área da saúde, é bastante comum encontrar anúncios patrocinados que prometem soluções milagrosas para problemas como perda de peso, calvície, hipertensão, diabetes e disfunção erétil, entre outros. A situação se torna ainda mais preocupante quando o usuário realiza uma breve busca sobre essas ou outras doenças, pois os algoritmos passam a direcionar uma grande quantidade de publicidades com promessas milagrosas relacionadas ao tema.
Com os avanços da inteligência artificial, 2026 parece ser o ano em que se tornará impossível distinguir se uma foto, um vídeo ou um depoimento são reais ou produzidos artificialmente. Diante desse cenário, surge uma questão inevitável: em que o cidadão deve acreditar? Como confiar nas informações disponíveis na internet?
Na área da saúde é possível verificar a veracidade das notícias por meio da busca de informações em entidades de classe, agências reguladoras e sites reconhecidos pela qualidade e seriedade de seu conteúdo. Fontes duvidosas ou sensacionalistas não merecem nossa atenção. Quando uma informação desperta desconfiança — especialmente quando promete soluções milagrosas — o mais prudente é questionar. Não é raro que essas narrativas venham acompanhadas de teorias conspiratórias para justificar por que uma suposta cura nunca teria sido divulgada antes. Na ciência e na saúde, senso crítico e verificação de fontes são indispensáveis. Afinal, na internet, qualquer dia pode acabar parecendo o Dia da Mentira.
*Daniel de Christo é farmacêutico, mestre em Genética e professor nos cursos de pós-graduação em saúde da Uninter.
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