A DRAMATURGIA DEMOCRÁTICA: APROXIMAÇÕES ENTRE ERVING GOFFMAN E A TEORIA DA DEMOCRACIA

Pedro Medeiros

Resumo


No Ocidente, a política e o teatro vêm, ao menos desde a Antiguidade clássica, acumulando afinidades históricas e semânticas que levam os analistas quase espontaneamente a pensá-los a partir de uma mesma linguagem: fala-se, assim, sobre o "palco da política", os "bastidores do poder" e, ponto nevrálgico da teoria democrática, a "representação política". Mas, para além dessas afinidades que sustentam o jargão político e o comentário jornalístico corriqueiro, pode uma sociologia política dramaturgicamente orientada esclarecer aspectos importantes da teoria democrática contemporânea? O presente trabalho pretende esboçar um mapa de algumas ferramentas analíticas legadas pela teoria de Erving Goffman que, como estão ou reformuladas, podem servir à explicação e à compreensão de aspectos essenciais de nossa "democracia de público", como as relações entre políticos, partidos e mídia, ou entre movimentos sociais e Estado. Para isso, discuto primeiramente algumas das transformações semânticas da "representação política" e como a questão teatral está aí inserida; em seguida, saliento as afinidades funcionais e estruturais entre o mundo político e o mundo teatral, mostrando como as mudanças históricas da modernidade, com o papel central que a “política mediatizada” nela adquire, tornam uma abordagem dramatúrgica ainda mais rentável como ferramenta analítica de compreensão da democracia; por último, procuro sistematizar algumas das principais contribuições de Erving Goffman para o esboço de um programa de pesquisa dramatúrgico dentro da teoria democrática contemporânea.


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