N√£o desistam do jornalismo

25 de fevereiro de 2016

Por Rogério Galindo*

 

Me pedem pra falar a voc√™s sobre jornalismo. Fico honrado, antes de mais nada, por me convidarem para isso, pois d√° a impress√£o de que pensam que tenho o que dizer. Falar sobre jornalismo me agrada ‚Äď √© uma das minhas paix√Ķes. √Č tamb√©m uma baita responsabilidade: defender as coisas que a gente ama √© dif√≠cil.

Mas me pedem especificamente para falar sobre o mercado de trabalho em que vocês estão para ingressar, como futuros jornalistas, como futuros colegas que são. E aí o assunto é ainda mais espinhoso. Primeiro, porque se eu vier aqui para desanimar vocês o pessoal do Uninter não há de ficar contente comigo. Segundo, porque não faz meu tipo ser o estraga-prazeres, ainda mais nesse momento de empolgação e de fazer planos em que vocês estão.
N√£o se preocupem, n√£o foi para isso que eu vim aqui.
N√£o que as not√≠cias sobre o mundo do jornalismo, em geral, tenham sido as mais animadoras. Como futuro jornalistas, espero que voc√™s venham acompanhando o que se diz sobre os jornais hoje em dia. E, se voc√™s viram as not√≠cias e n√£o se desanimaram, j√° passaram pelo primeiro teste ‚Äď a paix√£o de voc√™s n√£o se curvou √† realidade. E a realidade, √†s vezes, √© tensa.
Esses dias, recebi do meu irm√£o, no trabalho, um e-mail com um link. Ele sabe que eu, como jornalista, me interesso por essas coisas. Quando abri, um susto. O Independent, um dos mais tradicionais e melhores jornais da Inglaterra, decidiu cancelar sua vers√£o impressa. N√£o foi a primeira nem ser√° a √ļltima not√≠cia do g√™nero. Ve√≠culos simb√≥licos da for√ßa do jornalismo v√™m passando por reestrutura√ß√Ķes, demiss√Ķes, alguns chegaram a fechar.
O Independent ser√° s√≥ on-line. A Newsweek n√£o existe mais. No Brasil, o JB foi para a internet. O Jornal da Tarde fechou. No Paran√°, O Estadinho fechou, o mesmo aconteceu com o Jornal de Londrina. Os jornais que continuam por a√≠ muitas vezes reduziram suas tiragens. Muitos reduziram suas reda√ß√Ķes. Dificilmente se acha algum ve√≠culo que, hoje, tenha a mesma tiragem e a mesma reda√ß√£o de dez anos atr√°s.
N√£o s√£o poucos os que acham que o jornal impresso vai sumir. Talvez em breve. Talvez voc√™s sejam os √ļltimos a v√™-lo, a t√™-lo nas m√£os. Pra mim, um nost√°lgico do papel, isso soa muito estranho. Talvez daqui a alguns anos falar de jornal seja como falar de discos de vinil, de telegramas, de telefone com fio.
Meu filho hoje tem quase três anos. Quando perguntarem a ele, daqui a duas décadas, o que o pai dele fazia, talvez ele tenha dificuldade de explicar: ele escrevia matérias para serem impressas em papel, e esse papel era levado à casa das pessoas de bicicleta logo no início da manhã. Quando as pessoas gostavam muito, ou queriam criticar, escreviam em outro pedaço de papel e deixavam numa caixa amarela na esquina, na esperança de que o carteiro, que era um homem que levava pedaços de papel de um lugar para outro a pé, andando pela cidade, levasse até o chefe do meu pai e ele decidisse se punha aquela carta no papel do dia seguinte, para chegar também à casa das pessoas.
Pois é.
Aqui vocês podem achar que eu vou fazer uma mudança e começar a dizer quais são as boas notícias. Que nada.
A ‚Äėcrise‚Äô da profiss√£o vai muito mais longe. Tem a ver com aquilo que est√° substituindo os jornais. Tem a ver com a internet, com as m√≠dias sociais e, quem diria, com o BuzzFeed.
Aliás, seria interessante ver uma lista do tipo: Veja os dez motivos para você ficar longe de uma faculdade de jornalismo. Vocês vão ver que minha lista tem talvez menos itens, mas vai no sentido contrário. O jornalismo continua e vai continuar sendo apaixonante.
Mas eu falava da crise. Veja as mídias sociais. Hoje muita gente se informa pelo Facebook. Os textos ficam cada vez menores. Hoje, quando você escreve mil toques, tem de pedir desculpas por estar fazendo TEXTAUM. Essa minha fala, prevista para 40 minutos, talvez para a geração de vocês pareça um discurso do Fidel Castro.
Eu falo isso, mas nunca desprezo a gera√ß√£o de voc√™s, nem gera√ß√£o alguma. Nunca acreditei nesse neg√≥cio de gera√ß√£o x, y, ou √īmega. Somos todos humanos e meu conhecimento emp√≠rico na reda√ß√£o mostra que a gera√ß√£o de voc√™s, se for diferente da minha, √© diferente para melhor. Quem chega na reda√ß√£o, pelo menos, chega bem, sabendo muitas coisas que eu nunca soube.
Eu não peço desculpas pelo textão. E eu acredito que vocês saibam quem é Fidel Castro.
Mas vocês vivem num mundo em que as pessoas se informam via Facebook. Nesse mundo, o Lulinha é dono da Friboi, o Tico Santa Cruz e o Alexandre Frota são comentaristas políticos e o Will Smith ensina coisas para o Einstein.
Ok, eu sei que essa √ļltima √© brincadeira. Mas na verdade, o Einstein diria que isso √© poss√≠vel, desde que ele andasse mais r√°pido do que a luz. Eu acredito que voc√™s saibam quem √© Einstein e que queiram saber da teoria da relatividade.
Nesse mundo de vocês, e meu, os textos são cada vez menores. Dos artigos de página inteira, para os blogs, para o Facebook, para o Twitter, com 140 caracteres. Aí quando acharam que não tinha nada menor, inventaram de fazer emoticons e snapchat, pra não ter que a gente falar nada.
Tem gente mal humorada que acha que depois haverá só grunhidos. Não os ouçam. São só ranzinzas, e eles sempre existiram. O mundo não caminha para uma bestificação. Talvez seja o contrário.
Mas é fato é que há muita informação por aí, mas muito pouca coisa que possamos qualificar de informação de qualidade. Pelo menos proporcionalmente. Tem muita bobagem, muito boato, muito radicalismo. E, de vez em quando, alguma coisa que presta. Muito de vez em quando, alguma coisa genial.
Mas eu não quero que vocês pensem em ser geniais. Nosso trabalho não é esse.
Nesse mundo em que todo mundo fala, é preciso saber, como disse o Umberto Eco, que o idiota da vila ganhou voz. E que é preciso não só fazer ouvidos moucos mas também combatê-lo. Há muito imbecil falando bobagem sobre a zika, por exemplo. Nosso papel é toda vez dizer: isso é uma estupidez, você está prejudicando as vidas das pessoas inventando essa idiotice, espalhando mentiras. Isso é criminoso.
N√£o podemos ser c√ļmplices desse tipo de crime contra a boa informa√ß√£o‚Ķ
Ok, agora é hora de passar para o modo otimista, não?
Nada. H√° pelo menos mais uma coisa para lembrarmos. O jornalismo sofre tamb√©m, n√£o s√≥ em nosso pa√≠s, de uma crise de confian√ßa. Poucas coisas, como jornalista, me irritam mais do que coment√°rios simplistas que tentam dizer que o jornalismo √© uma ind√ļstria da conspira√ß√£o a favor de: Fulano, Ciclano, Beltrano, da ind√ļstria x, do partido y, da classe tal, do Lula, contra o Lula, do PSDB, contra a direita, a favor do Bolsa Fam√≠lia e ao mesmo tempo contra os pobres e assim por diante.
A se acreditar no que se diz da imprensa, n√£o apenas eu sou um pulha, mas somos todos um grupo muito bem azeitado de canalhas que ou trabalhamos em troca de propinas ou nos subordinamos a patr√Ķes que se parecem com um vil√£o de hist√≥rias em quadrinhos, tran√ßando os dedos de prazer por fazer mal a uma popula√ß√£o que em tudo cr√™, que tudo compra, que nada pensa.
Vivemos num país em que a imprensa é chamada de PIg. Partido da imprensa golpista. Isso pela esquerda, ou por parte da esquerda, ou por gente que cuidadosamente virou petista depois que o PT chegou ao poder. O outro lado, não satisfeito com a baixeza do discurso, chama a mesma imprensa de JEG, jornalismo do esgoto governamental, ou coisa que o valha.
Em geral, não são jornalistas que dizem isso. São penas de aluguel, a serviço de alguém, esses sim. Mas há também jornalistas que caem nessa esparrela. E eu peço a vocês: não façam parte desse time. Militem não no partido A ou no partido B.
Um velho chefe de reda√ß√£o me disse uma vez, quando eu ainda trabalhava de camiseta e apareci com alguma camiseta tem√°tica, defendendo sei l√° o que: ‚ÄúMenino, basta militar na profiss√£o‚ÄĚ. Hoje eu acho que ele estava certo.
Hoje eu tenho a honra de ser colega dele.
Mas apesar de tudo isso, sim: eu acho que há motivo para sermos otimistas. Com o jornalismo, com a nossa profissão, com o nosso futuro. Apesar da crise do papel. Apesar das mídias sociais. Apesar da crise de confiabilidade.
Mas ser√° que √© mesmo ‚Äúapesar de tudo isso‚ÄĚ? Alguns desses fatores podem mesmo nos beneficiar. Ou, talvez, todos.
Sim, eu não pretendo decepcioná-los com 40 minutos de notícia sombrias. Porque quando a gente vê as coisas assim, de perto, pode estar perdendo o principal. Como num outdoor. Se você vê de perto, são só pontinhos. De longe, a gente enxerga a imagem toda. E ela parece mais bonita...
A primeira coisa para a gente pensar o jornalismo de longe é tentar definir o que ele realmente é, grosso modo. Tentar dizer para que ele serve. E, já que estou aqui, vou tentar uma definição, ainda que simplória. O jornalismo é um relato do mundo à nossa volta. Mais do que isso, é uma tentativa de explicá-lo.
O mundo √© complexo. Sempre foi e hoje √© ainda mais. O mundo tamb√©m √© vasto. At√© uma √ļnica grande cidade, como Curitiba, √© grande demais para que algu√©m realmente a conhe√ßa e para que acompanhe em detalhes tudo o que acontece nela. Como sabermos o que acontece no mundo todo? S√≥ se tivermos mil olhos, um milh√£o, quem sabe. E ainda ser√£o poucos.
Os jornalistas são esses olhos, e esses ouvidos. Já disse Ruy Barbosa, numa frase célebre, que a imprensa são os olhos da sociedade. Não podia estra mais bem dito. E por isso não pensemos no jornal como um mero pedaço de papel. Ele é muito mais do que isso. Ainda que não houvesse papel, ainda que o jornalismo impresso esteja fadado a acabar, as pessoas continuarão precisando de alguém que lhes explique o que, afinal, está acontecendo à nossa volta.
Nesse sentido, o jornalismo √© semelhante √†s ci√™ncias. A ci√™ncia √© um tro√ßo revolucion√°rio. Durante muito tempo, as pessoas puderam acreditar que, se jogassem um objeto para o alto, ele poderia fazer uma trajet√≥ria qualquer, dependendo do √Ęnimo dos deuses, da vontade de uma for√ßa oculta, ou sabe-se l√° o que mais. Hoje, qualquer aluno secundarista passa por aulas de movimento retil√≠neo uniformemente variado e pode calcular, com margem m√≠nima de erro, onde aquilo vai cair.
A ci√™ncia nos explica o mundo. E tanto faz se isso acontece em pergaminho, papel ou bits. Isaac Newton escreveu seus tratados na √©poca da imprensa de tipos m√≥veis. Einstein melhorou a explica√ß√£o num tempo bem diferente, mas seus livros ainda foram impressos em papel. Stephen Hawking talvez j√° seja mais lido hoje em meio eletr√īnico. Quem sabe o pr√≥ximo grande g√™nio da f√≠sica escrever√°? E isso importa?
Lineu, Darwin e Mendelsohn descreveram h√° mais de um s√©culo o funcionamento dos corpos vivos. Richard Dawkings e Edward O. Wilson continuam esse trabalho na era digital ‚Äď Wilson, ali√°s, √© o criador da Enciclop√©dia da Vida, que permite que pesquisadores do mundo inteiro registrem on-line as novas esp√©cies que descobrem. Ser√° menor do que Lineu por trabalhar na era da internet?
Heródoto escreveu em papiro. Michelet, em papel. Ian Kershaw, Karen Armstrong e Thomas Cahil escrevem hoje para serem lidos em Kindle. Devemos achar que a História acabou por isso?
O jornalismo, ali√°s, tem uma tarefa mais parecida com a da hist√≥ria do que com a das outras ci√™ncias que citei antes. A F√≠sica, a Qu√≠mica, a Biologia aspiram a descobrir verdades fixas, imut√°veis, leis que possam ser aplicadas sempre e independente das circunst√Ęncias. A Hist√≥ria, em certo sentido, tenta fazer o mesmo. Mas, assim como o jornalismo, lida com o imprevis√≠vel comportamento humano.
Ser jornalista √© tentar explicar como uma cidade cresce, como as pessoas casam, que ideias habitam nosso mundo. √Č tentar entender as injusti√ßas, a fome, e tamb√©m a beleza de um poema, ou de um jogo de futebol. √Č entender os dramas e a del√≠cia da maternidade, da paternidade, da inf√Ęncia. √Č descrever como a vida social se organiza na pol√≠tica, de denunciar os maus pol√≠ticos, claro. √Č ver o mundo, se encantar com ele, e tentar resumi-lo o mais brevemente poss√≠vel, na esperan√ßa de que isso ajude algu√©m a ver as coisas melhor ‚Äď para, talvez, tomar melhores decis√Ķes. Ou, quem sabe, ajudar o mundo mesmo a ser melhor. Sem crer nisso, talvez n√£o valha a pena ser jornalista.
O jornal, eu dizia, n√£o √© um peda√ßo de papel. √Č um relato do mundo. E, sendo assim, pode haver jornais e jornalismo on-line, assim como em pergaminho, ou em qualquer outro meio: o r√°dio, a tev√™, a internet est√£o a√≠ para provar bem que ao longo do tempo essa nossa profiss√£o sobreviveu. E sobreviver√°. Disso n√£o tenho d√ļvidas.
Porque as pessoas sempre vão precisar que alguém lhes diga o que está acontecendo.
O fim do jornal impresso, se vier a acontecer, n√£o √© desprez√≠vel. Mas em nenhum sentido significa um golpe de morte para o jornalismo. As m√≠dias sociais, a internet, s√£o mais um fen√īmeno que devemos explicar, al√©m de uma bel√≠ssima ferramenta que podemos usar a nosso favor. E acredito mesmo que se pode fazer jornalismo nas mais variadas formas, inclusive em quadrinhos, inclusive em blogs, inclusive em memes. Sabe-se l√°.
A crise de credibilidade também é um evento passageiro, que também tem a ver com o momento do país, com o formato atual da nossa imprensa e com o estágio de desenvolvimento cultural em que estamos. Há de passar. E talvez os novos meios sejam um caminho para isso.
Não dizem os mais críticos do modelo atual que um dos problemas dos jornais é o fato de, majoritariamente, pertencerem a uma mesma classe social, que tenta impor sua visão de mundo, seus desejos e se perpetuar onde está por meio da mídia? Pois até isso pode-se mudar com a internet, ainda que as coisas (nem a crítica nem a solução) sejam tão simples quanto possa parecer à primeira vista.
Há muito acontecendo para mudar o jornalismo. Há muitas tentativas de fazê-lo passar para o século 21.
Algumas dessas tentativas acontecem dentro das reda√ß√Ķes tradicionais. O modelo de neg√≥cios vem mudando, com an√ļncios captados on-line, sem interm√©dio de ag√™ncia, via Google, Facebook etc. Implantam-se pay-walls porosos, fecham-se sites, vendem-se assinaturas. Criam-se blogs, plataformas multim√≠dia, aposta-se na comunica√ß√£o com o leitor. O jornal impresso pode estar em decl√≠nio e tamb√©m as reda√ß√Ķes no formato tradicional, mas a partida ainda est√° em curso, e com alguns gols da parte das empresas grisalhas do jornalismo nem t√£o convencional.
Outras iniciativas acontecem em toda parte. Criam-se cons√≥rcios de jornalismo. Ag√™ncias de reportagem investigativa, como acontece no Brasil com a P√ļblica, financiam-se com crowdfunding e fazem um belo trabalho. Para chegar mais perto de n√≥s, h√° trabalhos sensacionais como o do Livre.Jor, feito na unha por quatro rep√≥rteres que decidiram dedicar tempo livre para fu√ßar di√°rios oficiais e documentos nem t√£o p√ļblicos assim para descobrir coisas do arco-da-velha.
H√° novos jornais pequenos, como o Nexo, por assinatura. H√° sites especializados. Blogueiros com milh√Ķes de visitas, sem falar em YouTubers e outras coisas de que eu nem devo estar consciente. Muita coisa √© poss√≠vel, embora nem tudo seja desej√°vel.
O jornalismo pode estar no fim de uma era, mas outra se abre √† sua frente, disso n√£o h√° d√ļvida. Um mar de possibilidades est√° √† nossa espera, muito mais √† espera de voc√™s que de mim, que j√° remei bastante e come√ßo a cansar. Deus sabe o que voc√™s v√£o poder fazer com todas essas ferramentas na m√£o...
Certamente haverá fracassos. Mas, como diz o velho bordão, os pés na grama criarão novos caminhos, e vocês vão não só abri-los como trilhá-los. Eu vou gostar de participar disso, de ler vocês, ouvi-los, sem em que formato for.
O jornalismo não vai morrer, isso eu garanto a vocês.
O grande desafio, por√©m, est√° posto. E n√£o √© nem o fim do papel, nem a internet, nem a crise de credibilidade. √Č o modo como isso tudo se financiar√°. Eis o que realmente deve preocupar quem est√° de olho no futuro do jornalismo.
Nunca se leu tanto jornal. E nunca se pagou t√£o pouco por isso. Nunca a receita das empresas jornal√≠sticas foi t√£o pequena, e √© isso que explica as demiss√Ķes, as reda√ß√Ķes menores etc.
Dizem que uma vez perguntaram a Elio Gaspari (eu acredito que voc√™s saber√£o quem √©), meu her√≥i maior no jornalismo, qual era a solu√ß√£o para esse paradoxo. Dizem que ele respondeu: ‚ÄúSe eu soubesse, estaria num avi√£o rumo a Nova York para vender a reposta e ficar rico.‚ÄĚ
Ninguém sabe, esse é o ponto.
Sem dinheiro, não se faz jornal nem jornalismo. Os leitores estão ficando mal-acostumados a ter tudo de graça na internet. Há gente, inclusive jornalistas, que fica revoltada quando descobre que terá de pagar para ler algo. Gritam, bufam contra as empresas. Ok, mas quem pagará meu salário? Eu vou viver de ar só para as empresas não parecerem mesquinhas? Ora , façam-me o favor.
√Č claro que estamos todos em busca de meios que financiem o jornal sem que isso pese demais nos ombros e bolsos alheios. Mas n√£o d√° para esperar que o almo√ßo gr√°tis v√° ser inventado justo agora. E no jornalismo. N√£o vai.
Sabemos que o atual modelo de financiamento est√° cada vez menos resolvendo o problema. A venda de an√ļncios perdeu for√ßa, principalmente porque a migra√ß√£o para o digital mudou a propor√ß√£o em que esse dinheiro migrava para os grandes ve√≠culos. Hoje, grandes empresas de internet que formam quase um oligop√≥lio mundial, com Facebook, Google e YouTube √† frente, ficam com a fatia do le√£o, mais de 50% da receita publicit√°ria.
Quem quer sobreviver no mercado precisa ou brigar desesperadamente pelo que resta ou se aliar a esses gigantes. E os gigantes, sabe-se, normalmente s√£o os que est√£o em condi√ß√Ķes de impor a regra do jogo.
Ali√°s, vale fazer um par√™ntese aqui. Meu compadre Andr√© Tezza, grande te√≥rico tupiniquim da publicidade e da comunica√ß√£o em geral, sempre fala que as pessoas continuam equivocadamente se preocupando com debates sobre o monop√≥lio da Globo ou de outras empresas do g√™nero quando o mercado mudou brutalmente. As preocupa√ß√Ķes s√£o, ou deviam ser, muito outras hoje em dia. Fecha o par√™ntese.
Hoje somos muito lidos mas não sabemos como transformar isso em dinheiro. Como diz o jargão, precisamos de um jeito de monetizar isso. Falando português: fazer alguém pagar para que a gente trabalhe.
O New York Times, que geralmente está à frente em tudo, inventou o paywall poroso. O sujeito vê 20 matérias de graça e começa a pagar a partir da 21ª. Até que funciona. Pelo menos para o Times. Esse modelo está sendo copiado mundo afora. Mas há outras tentativas. Publicidade nativa (que eu particularmente acho o pior modo). Add words. Etc.
N√£o tenho d√ļvida de que se achar√° um modelo. Por um simples motivo. O que n√≥s fazemos tem valor. E as pessoas percebem isso. Resta achar um jeito em que todos os lados da transa√ß√£o saiam satisfeitos.
O valor do que fazemos é muito claro, me parece. Se eu não estiver sendo afetado pela vaidade, pelo menos. Falava antes que o mundo está ficando mais complexo e mais cheio de informação. Cada vez mais, portanto, é preciso ter gente que saiba encontrar a informação correta. Que saiba separar po joio do trigo. E que saiba apresentar isso de maneira não apenas precisa como atraente.
Isso se chama jornalismo. Pesquisar a verdade, checar as informa√ß√Ķes, fazer as perguntas certas, encontrar as respostas poss√≠veis, encontrar o melhor modo de contar uma hist√≥ria e, sobretudo, hierarquizar as informa√ß√Ķes. Dizer para as pessoas o que elas t√™m que saber ‚Äď e tirar o ru√≠do, aquilo que √© plena bobagem, da tua mat√©ria, do teu jornal.
E, olha, de novo, posso estar puxando a brasa para o nosso lado. Mas n√£o seria exagero dizer que o jornalismo √© algo de primeira necessidade e que vem fazendo muito bem a sua parte, em muitas ocasi√Ķes.
Vou dar s√≥ alguns exemplo, e se voc√™s me permitirem vou ficar principalmente em exemplos locais. Todo mundo sabe que o Times, o Le Monde, o El Pa√≠s s√£o brilhantes e necess√°rios. Pelo menos eu acho que todo mundo pensa assim. Todo mundo acha Spotlight o m√°ximo. E claro que √©. E talvez a gente n√£o consiga fazer o mesmo ‚Äď nem esses grandes jornais fazem isso o tempo todo.
Mas é também necessário mostrar o que se faz na porta ao lado, na nossa esquina.
Vejam s√≥, nos √ļltimos anos, a imprensa paranaense conseguiu o seguinte:
- Publicar uma s√©rie de reportagens que revelou um esquema multimilion√°rio dentro da Assembleia Legislativa do estado. O esquema pode ter desviado at√© R$ 200 milh√Ķes, segundo o Minist√©rio P√ļblico, e s√≥ foi descoberto por jornalistas que trabalhou nisso por dois anos. Gente foi presa, mas principalmente desmontou-se o esquema.
- Revelar esc√Ęndalos da Pol√≠cia Civil, com dinheiro que ia para delegacias inexistentes e ‚Äúmordom√≥veis‚ÄĚ usados para ir a prost√≠bulos, por exemplo.
- Mostrar um mapa detalhado dos homicídios de Curitiba, acompanhando mil mortes da cidade e como aconteceu (ou não aconteceu) a investigação judicial. E com isso comprovar que só 4% dos assassinos em Curitiba são condenados. Que é mais comum o assassino ser assassinado do que ter sentença judicial.
Essas s√£o hist√≥rias de investiga√ß√£o. H√° outras do g√™nero, mas h√° muito mais. O Mauri, aqui ao meu lado, contou por exemplo a hist√≥ria de uma fam√≠lia de Mangueirinha que tinha um menino de quatro anos com os p√©s corro√≠dos por doen√ßa causada pela pobreza. Contou a hist√≥ria da inf√Ęncia corro√≠da pela explora√ß√£o sexual.
Eu tenho paixão por um outro jornalista local, o José Carlos Fernandes, que a cada semana conta histórias maravilhosas que não têm a ver com hard News, muitas vezes, mas que mostram como nossa cidade realmente é. O travesti no momento da sua maquiagem, os moradores da Afonso Botelho expulsos pela Copa, uma longa entrevista com Tereza Urban...
Isso na mídia tradicional.
Nas novas mídias há coisas do mesmo gênero e de outros também.
Eu tenho a honra de ter visto um projeto absolutamente inovador e de tremenda relev√Ęncia dentro da minha casa mesmo. A Rosiane, com quem eu sou orgulhosamente casado, √© o tipo da jornalista inovadora. E come√ßou a pesquisar dados de parto e ces√°ria em Curitiba. Isso porque as mulheres muitas vezes n√£o t√™m o direito, nos hospitais, nas maternidades, de escolher. Os m√©dicos passam por cima desse direito.
O que a Rosiane fez? Pela lei de acesso √† informa√ß√£o, conseguiu dados de m√©dicos de v√°rias operadoras de sa√ļde e do SUS. E montou um site, chamado Nascer Bem, em que a gestante, ou quem mais quiser, entra e v√™ quantos partos e quantas ces√°rias cada m√©dico fez. Isso √© revolucion√°rio em v√°rios sentidos. √Č uma informa√ß√£o vital para muita gente, pesquisada, selecionada e tratada. In√©dita. E que n√£o est√° em forma de texto, mas √© o mais puro e melhor jornalismo poss√≠vel.
H√° milhares de outros exemplos no nosso dia a dia. √Äs vezes est√£o √†s claras, √†s vezes precisamos ver com mais calma, mas eles est√£o l√°. N√£o importa se na tev√™, no impresso ou na internet. O jornalismo nos traz informa√ß√Ķes preciosas dia a dia, sem falta.
E isso tem valor.
Voltando á história que citei lá em cima. Se daqui a vinte anos perguntarem a meu filho o que o pai dele fazia antes de ele ficar milionário e me sustentar passeando pelo mundo com a Rosiane, eu queria que ele dissesse outra coisa bem diferente daquela história do carteiro, e do pedaço de papel.
Porque jornalismo, vocês já entenderam isso, pra mim nunca foi, não é e nunca será um pedaço de papel.
Então, quando alguém perguntar em 2036, Bernardo, o que o teu pai fazia antes de você sustentar ele e a tua mãe nessa vida de luxo e ócio glorioso. Eu espero que ele diga:
‚ÄúMeu pai passou a vida estudando, se informando, lendo, olhando para o lado, conversando com gente de todo tipo para tentar entender o mundo em que a gente vive e poder contar as coisas do melhor modo poss√≠vel para os outros. Ou seja, ele foi jornalista.‚ÄĚ
Se o Bernardo responder isso, vai fazer feliz este velho jornalista, este velho pai.

*Jornalista e Mestre em Filosofia

Uma ideia sobre “N√£o desistam do jornalismo

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